Artigo completo sobre Troporiz e Lapela: onde o Gadanha move moinhos parados
Torre medieval e trilhos junto ao Minho marcam esta união de freguesias em Monção
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O Minho é largo e verde, mas quem dá o compasso à vida daqui é o Gadanha, ribeiro de nome de feitio que soa a malandro. Corre entre silvas, leva moinhos de parede escura a dormir desde que a luz elétrica chegou à aldeia e ninguém quis pagar a farinha ao moleiro. A água, essa, não pára: é o ruído de fundo de Troporiz e Lapela, murmúrio que antecede o nome das terras e que ainda hoje serve de despertador quando a noite é quente.
Pedra que já viu de tudo
A Torre de Lapela fica ali no alto, sozinha como quem perdeu os amigos. É o que resta do castelo que D. Afonso Henriques ofereceu ao arcebispo de Braga em 1166 — oferta que vinha com laço, claro: defesa da fronteira. Hoje é uma coluna de granito sem muralhas, porque em 1709 mandaram derrubar tudo para reforçar Monção. Lá de cima vê-se o Minho, a Galiza, e o telhado da casa do Zé que ainda cultiva salsichas em cima do telhado. Monumento Nacional, dizem os papéis; para nós é o sítio onde os miúdos aprenderam a jogar à apanhada.
Em Troporiz, a igreja de Santa Maria dos Anjos guarda o mesmo silêncio de sempre — aquele que só quebra quando o padre urra “Cordeiro de Deus” e as velhas respondem em surdina. O lugar-diz “Lage”-aponta para antas que ninguém viu, mas o povo faz questão de jurar que existem. Histórias há muitas: desde o tempo em que o território se chamava terra da Penha da Rainha até ao repovoamento de D. Sancho I, que mandou gente para cá como quem espalha sementes ao vento.
Trilhos para perder o fôlego e encontrar a paz
O Trilho das Pesqueiras vai pelo Minho abaixo, passando por muretes de pedra onde os pescadores armavam redes para sável e lampreia — espécies que hoje só aparecem nas fotos antigas. O Trilho da Cova da Moura sobe e desce, mete-se por carvalhais onde o chão é colchão de folhas e o silêncio tal que se ouve o estômago a rosnar. Quando o nevoeiro se senta, as teias de aranha parecem fios de pérola e o caminho transforma-se em casa de duendes.
Os moinhos do Gadanha são paragem obrigatória: telhados de lousa torta, rodas paradas desde a guerra do ultramar. Dentro, os eixos de madeira ainda aguentam, mas as mós estão mais gastas que joelho de mineiro. No verão o rio baixa, as lajes aparecem e lembram-se as lavadeiras que batiam a roupa ao som da festa do Senhor do Livramento.
O que se come (e se bebe) sem frescura
Carne Barrosã e Cachena não são nomes de música folclórica: são vacas que pastam no alto e depois descansam no forno a lenha. Cabrito com crosta dourada, truta do Gadanha engordada a pão e presunto, vinho verde que não é branco nem tinto — é Monção. O pão de milho, denso como coração de tia solteira, serve para não deixar escapar o molho colorau que mancha o prato e a camisola.
As festas são três: Nossa Senhora da Rosa, Nossa Senhora das Dores e, a 8 de setembro, o Livramento. Nesta última junta-se o sagrado e o profano: andor de flores, concertina, bancas de farturas e o Quim da taberna a servir branco no copo de plástico. Quando o sino toca, os velhos levantam-se da banca do domino e arrastam-se para a procissão; os jovens — os que restam, são 40 — ficam ali, a contar quantas romãs dá a árvore da praça.
Dos 454 residentes, 162 têm idade para receber a pensão e contar tudo em «antes da ponte» e «depois da ponte». Ainda assim, quando o fumo sobe direito das chaminés e o Minho segue lá em baixo, indiferente, a aldeia persiste: a Torre projeta sombra pequena sobre pedras que já viram romanos, franceses e turistas de sandálias com meia. E o Gadanha continue a correr, como quem lembra que, no fim do dia, a história não é nacional: é o ruído da água a acompanhar quem cá fica.