Artigo completo sobre Cossourado e Linhares: Muralhas da Idade do Ferro
União de freguesias com castro monumental entre colinas do vale do Coura
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O granito cinzento que se vê no alto não é só pedra: é um antigo que nos vai buscar ao café e, entre dois goles de bica, decide mostrar a casa onde nasceu. As muralhas do castro descem a encosta como as rugas de um velho que trabalhou a terra até aos 80 — parecem dobras naturais, mas são memória. Quando o sino da igreja bate as doze, o vento traz o eco do Livramento e lembra-nos que, se subirmos mais um bocado, ainda apanhamos a sobremesa em casa da D. Rosa.
Pedra que conta séculos
Entre os séculos V e II a.C. alguém teve a mesma ideia que o Zé Manel hoje tem para pôr a rede de pesca: escolheu o sítio mais alto para ver o que vinha. O Povoado de Cossourado estende-se por dois concelhos — metade cá, metade em Cerveira — como quem divide a conta do gás. Andar entre as três linhas de muralha é como folhear um álbum de fotos: cada pedra tem um canto de orelha, cada muro tem um “I was here” gravado com cinzel. Ninguém leva mapa; basta seguir o cheiro a alecrim e o barulho dos tordos.
Calendário que pulsa
A festa do Livramento é dia 8 de setembro, mas o pessoal começa a juntar-se na véspera. A procissão desce a estrada mais devagar que um trator sem piloto — pára para cumprimentar, outra vez para o cão atravessar, outra para tirar a poeira do sapato. Quando a banda toca o “Hino da Carta”, até o padre rebate o compasso com o arroz de carneiro. Em junho há festa em Linhares: o Santo António é razão para se abrirem as adegas e se provar o vinho antes de ir para a procissão. Quem não gosta de santo, gosta de convite para jantar.
Mesa que sabe a território
A Carne Barrosã não é mito: é o que sobra no prato quando o fumeiro já cantou. Os rojões à moda da terrinha levam colorau de chefe e banha de porco da vizinha — a batata serve para enxugar o molho e para provar que não há pão que se desperdice. Se for inverno e o nevoeiro subir do Coura, aparecem as papas de sarrabulho: talheres dispensam-se, a colher de pau é a única que não se queima. Para acompanhar, um branquinho que parece gasosa mas faz o mesmo efeito do que o irmão mais velho quando nos pega no colo: aguenta-nos até ao fim da refeição. Depois, ovos-moles de caneca e um bico de café que o doutor manda.
Caminhos entre o verde
Quem quiser queimar o cozido do domingo tem aqui percurso à fartazana. O trilho do castro sai mesmo em frente à escola primária (fechada há 20 anos, mas a placa ainda está nova) e sobe pela mata onde os miúdos iam apanhar bolotas para trocar por balas. A meio, um muro de pedra seca com uma figueira no meio — é a mesma que o teu avô dizia que era do tempo dele. Do alto vê-se a Serra d’Arga, que parece o dorso de um crocodilo a dormir. Não há placas de “proibido pisar”, só o cão do Sr. Aníbal que ladra mas logo deita-se ao sol.
Quando a tarde afina, o cheiro a lenha queimada avisa que o caldo verde vai sair do tacho. A pedra do castro arrefece, o pão quente amacia, o vento não pede licença para entrar. Cossourado e Linhares não estão no mapa por acaso: estão na ponta da língua de quem cá passa e fica com vontade de voltar — como quem vai ao café e lembra que ainda não pagou o café ao amigo.