Artigo completo sobre Insalde e Porreiras: onde os montes guardam memórias
Duas freguesias unidas no Alto Minho entre vales, granito e tradições que resistem ao tempo
Ocultar artigo Ler artigo completo
O som da água chega antes da imagem. Nas encostas do Alto Minho, a 461 metros de altitude, Insalde e Porreiras são duas aldeias que a administração decidiu casar em 2013, mas continuam com as suas personalidades — como irmãos que partilham o mesmo sobrenome mas não o mesmo sentido de humor. Os 393 habitantes distribuem-se por 1759 hectares onde cada curva é um postal novo, mas o verde cansa-se de ser repetido.
Duas freguesias, uma memória
Insalde guarda-se no meio dos montes como quem se esconde do vento — daí o nome, dizem, de insula. Porreiras é mais de se mostrar, com a igreja no topo da ladeira como quem manda na vista. Ambas mantiveram os brasões originais: Insalde com a sua estrela de seis pontas, Porreiras com o touro de armas abertas. São brasões que ninguém anda a explicar aos turistas, mas que os locais reconhecem como quem reconhece um familiar ao longe.
Quando os santos descem à rua
Em Agosto, os santos descem à rua e as aldeias enchem-se de gente que não cá mora. A Festa de Nossa Senhora do Livramento em Insalde é um fim-de-semana inteiro onde se junta o sagrado e o profano — missa às 11h, bifanas às 12h. As Festas do Concelho em Porreiras são mais antigas que muitos dos que lá dançam. Os andores pesam uma tonelada, os ombros que os carregam já os carregavam os pais. No arraial, o Toy canta "A Minha Casinha" e até o padre bate o pé.
Carne barrosã e vinho verde
A comida aqui não é para Instagram — é para encher o prato. A Carne Barrosã vem das vacas que se vêem pastar nas encostas, os rojões são servidos em tachos que parecem pequenos, mas enganam. O sarrabulho é daqueles que faz o estrangeiro achar que estamos loucos — sangue com farinha, mas depois de provar pede mais. O vinho verde é branco, ácido e bebe-se em copos pequenos que se enchem vezes sem conta. A broa de milho é feita no forno de lenha da Dona Guida — leve-a quente, mas não se queime, que ela tem memória.
Entre o Corno de Bico e os caminhos antigos
O Corno de Bico fica ali ao lado, mas não é para ir de chinelos. São 8 quilómetros de trilhos onde o telemóvel perde rede e se ganha silêncio. Os castanheiros têm mais de 100 anos e os fetos crescem como ervas daninhas. A Praia Fluvial do Taboão é onde os miúdos aprendem a nadar e os graúdos vão fugir ao calor — a água é fria, mas não é mar, por isso não há ondas para levar a toalha.
A espessura do quotidiano
Com 150 habitantes acima dos 65 anos, a aldeia funciona ao ritmo dos que cá ficaram. O café do Júlio abre às 7h para o primeiro bica e fecha às 19h sem consultar ninguém. Os dois alojamentos rurais são casas de família que se converteram — mantiveram as paredes de pedra, acrescentaram Wi-Fi. O luxo aqui é acordar com o galo e não ter reunião marcada. À noite, o céu é tão escuro que se vê a Via Láctea — e isso não está no Airbnb, está no céu.