Artigo completo sobre Parada: vinhas de altitude no coração de Paredes de Coura
Socalcos de vinho verde, talha dourada barroca e caminhos de pedra na serra do Lima
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A pedra dos muros ergue-se em degraus sucessivos, desenhando no flanco da montanha um labirinto de socalcos onde a vinha se agarra ao xisto. O vento sobe do vale do Lima trazendo o cheiro a terra húmida e a castanheiro, enquanto o sino da capela de Nossa Senhora do Livramento marca as horas sobre o casario disperso. Parada respira a 511 metros de altitude, suspensa entre o céu e as ribeiras que descem da Serra do Soajo — um ponto de paragem que nunca deixou de o ser desde que o topónimo latino parata fixou aqui, na Idade Média, o lugar onde as vias de travessia paravam para descanso.
A memória talhada em talha dourada
A Igreja Matriz de Parada — edificada em 1758 conforme a data gravada na portalada — guarda no seu interior a exuberância barroca do século XVIII: retábulo em talha dourada que brilha à luz das velas, azulejos setecentistas que contam histórias de santos e milagres. Mais acima, a Capela de Nossa Senhora do Livramento — com licença de construção outorgada em 1692 por D. Luís de Sousa, bispo de Viana — atrai em setembro romeiros que sobem a pé os caminhos de pedra, em procissão que se perde na memória colectiva. O granito das casas senhoriais, os espigueiros que pontuam os campos, os moinhos de água silenciosos nas margens das ribeiras: tudo aqui foi moldado pela mesma mão paciente que ergueu os muros de pedra seca, centímetro a centímetro, geração após geração.
Vinhos que nascem da altitude
A viticultura em socalcos define a paisagem e o paladar de Parada. As castas Loureiro e Alvarinho amadurecem devagar nesta altitude, produzindo vinhos verdes de acidez viva e aroma mineral. Na única tasca que funciona ao fim-de-semana — o Café Central, na Rua da Igreja — o arroz de sarrabulho chega à mesa fumegante, acompanhado de broa de milho ainda quente. A Carne Barrosã DOP — do gado bovino que pasta nos lameiros da serra — grelha-se em brasas de carvalho, libertando um perfume que se mistura ao fumo das lareiras. Os doces conventuais são os que as mulheres da aldeia ainda fazem em casa: sapos de Paredes de Coura, folhados de doce de ovos e os famosos "bolinhos de noiva" que se comem nas procissões.
Caminhos que sobem à serra
Os trilhos pedestres partem de Parada e perdem-se na Paisagem Protegida da Serra do Soajo. O PR1 "Trilho dos Socalcos" — 8,5 km assinalados em 2017 pela Câmara de Paredes de Coura — atravessa matas de carvalho e castanheiro onde o milhafre-real desenha círculos lentos. O Caminho dos Moinhos segue a ribeira de Parada até às quatro azenkas que ainda moem trigo nos meses de maior caudal, enquanto a vereda que desce ao Lima cruza a ponte românica de Vilar — com data de 1248 na epígrafe mal lavrada. Nos pastos altos, os cavalos Garranos movem-se em rebanho, selvagens e indiferentes ao caminhante que sobe ofegante. A aldeia fica lá em baixo, os seus 118 fogos recortados contra o verde dos socalcos.
Setembro sobre o vale
Quando chega a Festa de Nossa Senhora do Livramento — 15 de setembro, desde pelo menos 1704 segundo os primeiros assentos paroquiais — Parada multiplica-se. A procissão desce da capela ao som de cânticos antigos, seguida pelo arraial onde as cantigas ao desafio ressuscitam rivalidades entre as famílias Oliveira e Sousa que aqui vivem há quatro gerações. O fumo das grelhadas sobe entre as barracas, misturado ao cheiro a vinho verde e a castanhas assadas. À noite, o vale do Lima desaparece sob o nevoeiro que sobe devagar, engolindo as luzes uma a uma, até restar apenas o eco distante de uma concertina — talvez tocada por José "o da Viola", o último que ainda sabe os corridinhos antigos — e o frio húmido que obriga a puxar o casão de lã — como se a serra lembrasse, afinal, que aqui o tempo se mede em vindimas e não em calendários.