Artigo completo sobre Romarigães: granito e vinhas no vale do Coura
Freguesia de 224 habitantes entre património classificado e tradições vinícolas do Alto Minho
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O sino da igreja marca as horas com a voz cansada do bronze - às vezes falha, outras soa duas vezes seguidas quando o Manel se distrai na corda. As casas de granito, pintadas de branco nos anos 70, agora descascam em placas que a chuva leva para o Rio Coura. Romarigães dorme pregada às encostas, entre vinhas que o José Lima ainda trabalha com um trator que mais parece de museu.
O que ficou de pé
A Igreja Matriz e a Capela de Santo António são Imóveis de Interesse Público - o que quer dizer que ninguém as pode demolir, mas também que ninguém arranja o telhado. O calcetamento das ruas, onde a minha avó dizia haver "pedras que estão lá desde que ela se lembra", agora é tapado com cimento quando uma raiz de sobreiro levanta uma laje. Os 31 habitantes por quilómetro quadrado tornam-se 0 depois das 22h, quando os únicos candeeiros que ficam acesos são o da Igreja e o do bar do Sr. António - se ele não se tiver adormecido no sofá.
A Festa de Nossa Senhora do Livramento é no domingo mais próximo de 8 de setembro. Os emigrantes começam a chegar na sexta, com matrículas de França e Suíça estacionadas em cima dos passeios. No domingo de manhã, a procissão desce a rua principal - a filha da D. Rosa vai à frente com a coroa de flores artificiais que já tem trinta anos, os rapazes da banda filarmónica suam naqueles fatos de lã que herdam dos pais, e o padre, que vem de Vila Verde, lê o sermão com sotaque de Braga.
O que se come
Carne Barrosã é quando se mata o boi no Natal. O resto do ano é salsichas caseiras, toucinho temperado no outono, e galinha do quintal quando há visitas. O vinho verde sai da garrafa de cinco litros que o Sequeira traz em troca de azeite da terra da filha. Nas adegas de granito, onde os meus avós guardavam os sacos de batatas, agora há turistas a tirar fotografias a pipas vazias - os meus primos puseram lá umas garrafas antigas para "dar ambiente".
O que se vê
Os 713 hectares são sobretudo mato. As vinhas que o meu avô plantou foram arrancadas com subsídios da UE - dizem que era para combater a "produção excessiva", mas ele morreu dois anos depois de ver as parreiras arrancadas. Agora há silvas e eucaliptos, e nas zonas que ainda ninguém vendeu aos alemães, umas vinhas novas em socalcos perfeitos que parecem postais. Os seis alojamentos são casas de família remodeladas - na da minha tia Olga, os turistas dormem onde ela nasceu, e ela vai às 7h da manhã regar as hortas que ainda são dela, mas que agora aparecem no Airbnb como "experiência de agricultura biológica".
Ao entardecer, quando o sol se põe atrás do Santuário de Nossa Senhora da Assunção, a luz entra pela janela da cozinha onde a minha mãe ainda faz pão nas sextas - o mesmo sítio onde ela aprendeu com a avó, que aprendeu com a avó dela. O cheiro não mudou: trigo moído no moinho de Vila Verde, fermento de padeiro da vila, e aquela manta de lã que sempre esteve pendurada na cadeira, a absorver o fumo do fogão a lenha.