Artigo completo sobre Britelo: Manhãs de Granito e Fumo de Castanheiro
Aldeia minhota entre lameiros e carvalhais, onde o tempo corre ao ritmo dos ribeiros da serra
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O granito frio da eira comunitária ainda guarda o calor dos pés descalços que ali batiam o centeio até há bem pouco tempo — os velhos dizem que o som era como tambores ao longe. Em Britelo, a manhã não chega: nasce entre o canto do galo do Sr. Armindo e a porta da padaria a ranger, quando a D. Laura vai buscar o pão de milho ainda quente que embrulha no avental. O fumo que sobe das chaminés não é só de lenha: é da castanha que estão a assar lá dentro, para o lanche das crianças que vão à escola de Vila Pouca.
Onde a pedra conta séculos
A Igreja Paroquial de São Miguel tem a porta de madeira que range sempre no mesmo sítio — quem cresceu aqui reconhece o som como se fosse a voz de um familiar. Dentro, o cheiro é de cera derretida e roupa guardada: as tochas de Ramos são feitas com alecrim do monte e o altar-mor só brilha aos domingos, quando a tia Guida passa o pano com água e vinagre. Subindo a serra, a Capela de Nossa Senhora do Viso é só um monte de pedras cobertas de líquenes, mas no dia 24 de Agosto enche-se de carros estacionados na berma e de velhas de headscarf que sobem a pé, carregando cestos com broa e rojões para o almoço depois da missa.
Os cruzeiros de pedra não são só "testemunhos silenciosos": são marcos onde se sentava quem vinha da feira de Ponte da Barca com as pernas doridas, e onde ainda hoje o pessoal se encontra para ir à caça ou às tantas da noite, quando não querem que as mulheres saibam. Os moinhos do ribeiro são três: um servia para moer a farinha da aldeia toda, outro era onde o Sr. Albano fazia aguardente de medronho, e o terceiro ninguém se lembra para que servia.
Sabores que nascem da terra
Na cozinha da D. Odete, o fogão a lenha está sempre com a porta do forno entreaberta para não queimar o pão — ela sabe ao som se a lenha é de carvalho ou de pinheiro. O ensopado de borrego leva um galhinho de louro que veio do pé que cresce ao lado da casa; o arroz de feijão verde não leva courgette, leva abóbora de "pescoço de velha" e os feijões são os que se secaram na eira, não os comprados no supermercado. A sopa-dourada é o que sobra do pão-doce do Natal — se sobrar — e vai para o forno depois do jantar, quando o forno ainda está quente dos castanheiros.
A Carne Barrosã é mesmo da vaca que pastava no monte de cima: quando morre, a aldeia inteira sabe e vai lá comer bifanas durante três dias. O vinho verde é do depósito do Zé Manel, que faz na garagem com uvas da vinha do pai — não tem selo nem etiqueta, mas desce que nem água. Os serões do "Ciclo das Colheitas" são na casa do povo: levam-se cadeiras de casa porque não há suficientes, e as sopas de nabos são feitas num tacho de cobre que a D. Albertina traz emprestado da irmã.
Trilhos entre vales e carvalhais
O Caminho de Santiago passa mesmo em frente à casa do Sr. Jaime, que já não se lembra de quantos peregrinos lhe bateram à porta para pedir água. Ele nem sempre dá — às vezes está a ver o jogo e não quer ser incomodado — mas a mulher deixa sempre um garrafão na bica. Os bois que lavram ainda são do Sr. António: são dois, chamam-se Fidalgo e Zeca, e quando passam pela aldeia as crianças correm atrás como se fosse uma procissão. A "Venda Nova" é agora só um chão de casa em ruínas, mas ainda se encontram moedas antigas quando se planta batatas — o Sr. Lourenço tem uma coleção num pires de loiça.
Quando a tarde cai, o adro da Capela de Nossa Senhora da Paz é onde os rapazes vão fumar os primeiros cigarros escondidos e onde as velhas vão sentar-se para ver quem passa. A luz dourada não é poesia — é o reflexo do sol que bate na fachada da casa do Sr. Albano, pintada de amarelo há vinte anos e que já está a descascar. O sino toca às sete em ponto, mas o eco demora mais tempo no inverno, quando o ar está mais pesado e as montanhas parecem mais perto.