Artigo completo sobre Cuide de Vila Verde: onde a serra encontra o Gerês
Aldeias de granito, trilhos de Santiago e carne de altitude em Ponte da Barca
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O granito aparece entre o verde-escuro dos carvalhos como quem mete a cabeça pela porta do café. Às vezes tem manchas de musgo amarelo — é a humidade que se mete onde não é chamada, tal como o meu tio António. Aqui, a 292 metros de altitude, o ar chega pesado das montanhas, cheirando a resina e a terra molhada. Cuide de Vila Verde são 311 pessoas espalhadas por encostas onde o xisto segura as paredes dos socalcos como quem segura as calças quando o cinto se parte.
No limiar do Gerês
A freguesia encosta-se ao parque como quem pede um cigarro ao vizinho. Os trilhos sobem entre pedras e clareiras onde o silêncio só é estragado por um melro ou pelo estalar de um ramo sob as botas. O Caminho de Santiago passa por cá, trazendo peregrinos com a mochila às costas e cara de quem acabou de perceber que o mapa não é bem assim. Às vezes o nevoeiro desce tão depressa que até o cão do Sr. Joaquim se perde no caminho de casa — e ele conhece aquele trilho desde que tinha nove anos.
Carne de altitude e vinho verde
Nas pastagens altas, as vacas Barrosãs pastam como se o mundo fosse delas. Já as Cachenas são mais nervosas — são as "citadinas" do gado, se é que me entende. A carne que daqui sai não é só DOP, é anos de bichos a comer erva que sabe a montanha. Quando a metem na grelha, até o vegetariano mais convicto hesita. O vinho verde que acompanha é daquele que faz a boca franzir primeiro e sorrir depois. Serve para lavar a alma e a gordura — duas coisas que por cá andam sempre de mãos dadas.
Romarias que marcam o calendário
A Festa de Nossa Senhora da Paz e a Romaria de S. Bartolomeu são como o Natal e o Ano Novo, só que com mais pó e concertina. As mulheres de xale escuro descem os caminhos como quem vai ao pão, só que carregando andores. Os homens fazem caras sérias, mas lá no fundo gostam que lhes tirem uma foto. Há chouriça assada que cheira a três freguesias de distância e vinho que se bebe de copo de plástico mas sabe a céu de Verão. Não é espectáculo para turistas — é o que resta do ano quando se tira a televisão.
O peso do granito e o eco dos passos
Caminhar por Cuide é sentir o corpo a lembrar que não tem vinte anos. As subidas são daquelas que fazem os joelhos conversarem com os dentes. Mas depois chega-se ao alto e vê-se o vale inteiro, e até o mais cansado percebe porque é que ninguém quer ir embora. À noite, quando os peregrinos já dormem e os cães deixam de ladrar, fica só o som da água que corre algures e o cheiro a lenha queimada. É um fio fino que liga este lugar ao resto do mundo — como a senha do Wi-Fi do café, só que nunca se esgota.