Artigo completo sobre Lindoso: Espigueiros de Granito e Castelo na Serra
60 espigueiros de pedra e uma fortaleza medieval sobre o Lima, a 743 metros de altitude
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O granito queima os dedos ao fim da tarde, ainda guarda o sol inteiro dentro dele. Os sessenta e tal espigueiros — ninguém aqui diz "sessenta e poucos" — param-se em duas filas desconjuntadas, como se a conversa os tivesse deixado a meio. Sobem do Lima o vento e um cheiro a água parada entre pedras, misturado com fumo de lareira que alguém acabou de atear. Aqui, a 743 metros, o silêncio é outra coisa: pesa nos ombros, faz ranger a mandíbula, só quebrado quando um melro se atreve ou a porta do Toninho range no largo.
Pedra sobre pedra, memória sobre memória
O castelo nasceu do mesmo granito onde se assenta — dizem que os pedreiros foram abrindo buracos até encontrarem a rocha viva. Mandaram-no erguer no século XIII e depois vieram os militares de D. João IV alargar as ameias, cavar covas para os canhões que nunca chegaram a disparar. As trincheiras que se vêm lá em baixo são de 1809, quando os ingleses do General Silveira acamparam aqui em cima e deixaram ossos e garrafas. A passarela de vidro estala debaixo dos pés — é só medo de quem não está habituado à altura. A igreja de Santa Maria tem a porta destrancada até ao fim do dia; entre e veja o retábulo, mas tire o chapéu e não faça barulho que o sacristão está a dormir no banco. A Capela da Paz, lá em baixo, só abre em agosto quando os romeiros sobem a nora dos pés descalços e o padre esquece o sermão ao meio.
Carne, vinho e fumo
Nas papas de sarrabulho o sangue do porco ainda lateja — leva pimenta da terra, colorau e um fio de aguardente que se sente na ponta da língua. O ensopado vai na panela de barro desde as sete da manhã, regado com loureiro e um copo de branco da Quinta do Cruzeiro que o Zé Manel guarda para as ocasiões. O cabrito não se pede; aparece quando há festa, torrado na brasa de sobreiro até a pele fazer bolhas douradas. Em janeiro a praça enche-se de fumo — chouriças de paprica fumegante, alheiras que pingam gordura, salpicões que cheiram a cabra e a curral. A carne Barrosã é do Gerês, a Cachena é daqui a dois saltos; ambas vêm com feijão branco e um naco de broa que se parte na mão. Para a sobremesa, queijadas ainda quentes que a dona Rosa traz em tabuleiros cobertos com um pano de linho — coma antes que arrefeçam.
Verde sobre verde
O trilho PR3 começa mesmo depois da ponte velha: siga as marcas amarelas e não se meta pelos caminhos de servidão que os pastores fecham com arame farpado. São duas horas e meia até ao Lima, descendo entre muros de pedra solta onde os fetos lhe batem nos joelhos. No Verão a água está baixa, mas ainda leva gelo suficiente para doer nos tornozelos. Os garranos — cavalos selvagens que afinal são de ninguém — pastam nos carvalhais e olham-no de esguelha como quem pergunta "quem és tu?". Do miradouro do Pico, a serra desenha-se em camadas: primeiro as vinhas em socalcos, depois o xisto cinzento, depois o céu que parece maior do que é. Almeida Garrett passou por aqui num dia de chuva e escreveu "singela aldeia" — devia estar com frio.
Onde o milho dorme de pé
Quando o sol se põe atrás do Castro Laboreiro, os espigueiros perdem a cor e ficam só volume: quadrados negros contra o céu que ainda arde. Alguns têm a data de 1780 raspada na pedra do lado esquerdo — leia com o dedo, as letras estão gastas mas ainda se sentem. Um deles foi convertido em quarto: dentro cheira a madeira torrada e a milho velho; a porta é estreita, bate com o vento e não há candeeiro — leve a lanterna do telemóvel. Ao amanhecer, quando o nevoeiro sobe do rio, os espigueiros parecem barcos à deriva. O som dos passos na lajedra multiplica-se, como se andássemos a três.