Artigo completo sobre Sampriz: Onde o Gado Barrosão Pasta a 427 Metros
Freguesia de montanha em Ponte da Barca com carnes DOP, vinhas de Vinho Verde e vista para o Gerês
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O adro da igreja serve de varanda para o mundo. Está a 427 metros, sim, mas o que importa é que dá para ver a aldeia do lado esquerdo, as vinhas do Sequeiro à frente e, se o dia estiver limpo, o Gerês lá longe como um elefante deitado. O granito aqui não é "característico", é só o que sobrou quando cavaram para plantar batatas.
O que se faz para ganhar a vida
Dizer que "vivemos do gado" é meia verdade: vivemos de o ir buscar quando ele decide que a cerca é só recomendação. A Barrosã é burra e teimosa como um familiar. A Cachena, essa sim, tem juízo: é pequena, dá para ajeitar nos socalcos e, no inverno, sobrevete ao vento que entra pelas costuras da serra.
O resto são hortas que nem um postal e umas vinhas que dão uvas para o vinho que bebemos no Natal e nas missas do 7.º dia. O milho seca nas eiras até ao fim de setembro; depois vai para o celeiro onde as galinhas fazem a inspecção antes de nós.
Onde se cala até o Google
307 habitantes diz o papel. Na prática são 280, porque o Zé do Lameiro continua lá metido no recenseio apesar de ter ido para a Cela de Ponte da Barca há três anos. Ainda assim, o silêncio é tão grosso que se ouve a broa a crescer no forno da Dona Emília — ou talvez seja a audição a falhar com a idade, que aqui chega mais depressa que o correio.
Passa quem quer, fica quem pode
O Caminho de Santiago traz uns quantos alemães de mochila que parecem que vieram engolir a paisagem. Param para tirar uma foto ao cruzeiro, beber água na fonte e perguntar se há café. Não há. Há a cisterna, há o alpendre da D. Rosa que aluga dois quartos com pequeno-almoço incluído e há o barulho das vacas a lembrar que isto não é a App Store, é outro sistema operativo.
Dias em que a aldeia respira mais fundo
A Festa da Paz, no domingo mais próximo de 6 de agosto, junta gente que nem sabia que cá morava. Come-se sardinha, bebe-se daquela mini que só se enconstra no Minho e dança-se vira até o chão do adro ranger. Já a Romaria de São Bartolomeu, em agosto, é mais pequena mas compensa em fogo-de-artifício: o Simões compra-o em Espanha, mete-o no BMW e faz questão de estourar quase tudo antes de começar a missa.
Quando o sol se põe atrás do Corno de Bico, o granito fica cor de mel e o cheiro a estrela-do-mato lembra que o dia seguinte volta a ser o mesmo — e que isso, para quem cá está, é exactamente o que se pede.