Artigo completo sobre Vade: onde o moinho de linho ainda range ao ritmo do ribeiro
Vade (São Pedro), em Ponte da Barca, mantém vivo o moinho de linho mais antigo do concelho e celebra tradições centenárias junto ao Parque da Peneda-Gerês.
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O ribeiro corre estreito entre margens de pedra musgada, e o som da água amplia-se no silêncio da manhã. Junto à margem, a roda do Moinho de Água do Carrasco gira devagar, rangendo nas juntas de madeira gretada pelo uso de séculos. É o moinho de linho mais antigo do concelho ainda em funcionamento — registo de 1756 na Carta de Foral de Ponte da Barca — e dentro do edifício de granito o ar cheira a humidade fria, a terra batida e ao pó finíssimo das sementes moídas. Vade (São Pedro) respira ao ritmo deste ribeiro e dos socalcos que sobem a encosta, onde 240 pessoas mantêm viva uma paisagem que o Parque Nacional da Peneda-Gerês protege desde 1971, quando o concelho de Ponte da Barca foi integrado na área do parque.
O vado que virou freguesia
O nome vem do latim vadum — passagem, travessia —, lembrança de quando aqui se atravessava o Lima antes de haver pontes. O foral de 1125 de D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, menciona já "Vado de Lymia" como ponto de travessia obrigatória na estrada que ligava Braga à Galiza. A paróquia de São Pedro aparece em documentos de 1258, no Inquérito de Afonso III, atada ao caminho medieval que subia o vale. A Igreja Matriz, erguida entre 1563 e 1617, guarda um retábulo barroco de 1693 atribuído a José de Santa Bárbara e painéis de azulejo de 1712 com cenas da vida de São Pedro; no coro, um órgão de tubos Manuel de Sá Couto de 1867 ainda soa nas festas, enchendo a nave de harmónicos graves. No adro, o Cruzeiro de 1742 marca a entrada da aldeia, granito lavrado onde os peregrinos do Caminho de Santiago do Norte — rota que passa aqui desde 1984, quando o traçado foi recuperado — fazem pausa antes de retomar a marcha, seguindo a concha amarela pintada nos muros.
Fiar, tecer, guardar
Vade conserva a memória do linho. No fim de julho, o "Dia do Linho" — iniciado em 1998 pela Associação Cultural de Vade — traz demonstrações de fiar e tecer no Centro Interpretativo, onde Maria da Conceição Gomes (1924-2015) deixou rodas de fiar de 1942 e o tear de madeira de nogueira que trouxe do Soajo em 1960. Em junho, quando a flor azul do linho abre nos campos entre as ruas da Costa e do Cimo de Vila, ainda há quem participe na colheita. A broa de linho, receita de 1903 da avó Emília Gonçalves, doce de massa de milho e sementes, é servida nas mesas das festas junto aos rojões à Minhota com sarrabulho e ao cabrito assado em forno de lenha, que deixa na cozinha um cheiro intenso a alecrim e gordura tostada.
Entre carvalhos e espigueiros
O trilho PR 15 "Vade – Vilarinho" — homologado pela Federação de Campismo de Portugal em 2009 — percorre oito quilómetros de socalcos, moinhos abandonados e espigueiros em pedra seca. No lugar de Cerdeira, o conjunto de 17 espigueiros é classificado Imóvel de Interesse Municipal desde 1982. O caminho passa por bosquetes de carvalho-alvarinho e medronheiro, onde no outumo se avistam milhafres-reais e coruja-das-torres. Nas margens do Lima, a ciclovia desenrola-se plana até Ponte da Barca — inaugurada em 2017 com 12 km —, e no Verão os areais fluviais de Fonte Coberta e de Barroselas enchem-se de famílias que mergulham nas águas frias e esverdeadas.
Carne, vinho e requeijão
A Carne Barrosã DOP — com selo atribuído em 1996 — cheja estufada ou grelhada; a Carne Cachena da Peneda DOP, cozida com feijoca branca até desfiar. Na Quinta do Carneiro — propriedade da família Abreu desde 1834 — prova-se o Vinho Verde DOC: Loureiro de 2022 fresco, Vinhão tinto de 2020 encorpado. Na Quinta da Peneda — herdade de 42 hectares comprada por Joaquim Lima em 1998 — o requeijão de ovelha vem acompanhado de doce de abóbora da variedade "Menina Preta", plantada nos campos de Vade há três gerações. À noite, nos quintais, o céu abre-se num manto de estrelas: Vade integra a zona classificada "Starlight" desde 2019, onde a poluição luminosa não apaga a Via Láctea.
A roda do moinho continua a girar, impassível, enquanto a água escorre entre pedras cobertas de limo. Quem passa ouve o ranger da madeira e leva consigo esse som — eco de um tempo que aqui nunca parou de se repetir, grão a grão.