Vista aerea de Beiral do Lima
DGT - Direcao-Geral do Territorio · CC BY 4.0
Viana do Castelo · CULTURA

Beiral do Lima: três festas e 500 almas no vale

Freguesia de altitude em Ponte de Lima onde os Caminhos de Santiago cruzam tradições religiosas

500 hab.
362 m alt.

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Áreas protegidas

Festas e romarias em Ponte de Lima

Julho
Festa da Senhora da Boa Morte Último fim-de-semana festa popular
Festa do Senhor do Socorro Primeiro fim-de-semana festa popular
Agosto
Festa do Senhor da Saúde Dias 23 e 24 festa popular
ARTIGO

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Freguesia de altitude em Ponte de Lima onde os Caminhos de Santiago cruzam tradições religiosas

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O granito dos muros aquece à conta do sol da tarde e, quando se encosta a mão, arde devagar como um braseiro. O sino da igreja — ferro fundido de 1892 — bate as cinco e a vibração sobe pelos tornozelos, faz ranger as caixilharias das janelas que ainda têm caixas de madeira. Do adro vê-se o Lima a fazer uma curva preguiçosa, com a água tão cheia de luz que parece líquido de lâmpada. O cheiro não é “indefinível”: é folha de nogueira pisada, fumo de forno a limpar, estrume de vaca que se estende no campo às quarta-feira e que ainda paira na sexta.

Beiral do Lima não se “estende” — aguenta-se. Fica a 362 m, mas quem sobe a Estrada da Póvoa sente na barriga cada um dos metros que ganha. São 495 almas (o padre ainda conta o Sr. José Brites, embora ele só venha no Verão), 37 crianças e 172 com mais de 65 anos. A diferença nota-se na aldeia como falta de dentes na boca: há lugares onde a rua desaparece de vez, tapada por silvas e silêncio. Mesmo assim, cinco das casas que estavam em ruínas agora têm placa de “alojamento local” e lençóis de retalhos nas janelas — o cheiro a sabão da fábrica de Viana espalha-se ao Domingo de manhã, quando os alemães saem com os pés descalços para fotografar o horto.

Três festas, três cheiros

Nossa Senhora da Boa Morte (primeiro domingo de Setembro) cheira a manjericos acabados de cortar e a cera derretida que escorre das velas e forma montículos dourados no chão de pedra. O Senhor da Saúde (Janeiro) traz o fumo das sardinhas que se assam dentro do adro, sobre grades de ferro emprestadas pelo ferrador — pingam gordura sobre o lajedo e os cães lêm-se logo que a procissão vira a esquina. O Senhor do Socorro (Julho) é festa pequena: só duas velas, um acordeão e o cheiro a bagaço que o Sr. Aníbal esconde na algibeira da bata branca. Nenhuma banda. Nenhuma roda de karaoke. Só o padre a subir as escadas do altar com o sobrolho suado de quem já carregou o andor pela rua de cima.

O que se come (e bebe) sem pedir

Às sextas-feiras há caldeirada de enguias na casa da D. Lúcia — ela avisa com um papel A4 na portinhola: “Há peixe. Traga pão.” Serve-se numa tigela de barro preta, fumegante, com colorau que mancha os beiços. A carne Barrosã não vem em cardápio: aparece quando o Silvestre mata um novilho e telefona para a aldeia inteira. Leva-se o prato de loiça e regressa-se com dois nacos e um osso para o cão. O vinho é branco do ano, servido em copos de 200 ml que o restaurante de Lisboa chamaria “copo de água”. Tem gás que sobe à cabeça e acidez que faz cosquinha atrás da orelha — depois do segundo já se fala alto, depois do terceiro canta-se o “Hino da Maria da Fonte” mesmo não sendo 15 de Agosto.

Lagoas que se ouvem antes de se ver

Quem quiser água farta vai até Bertiandos, mas quem tem preguiça fica pela Levada do Castanheiro: há ribeiras que só se ouvem, escondidas em matagal de aderno. O barulho é de garrafa de champanhe aberta — “tchic” — seguido de foles de ar fresco que descem da Serra de Arga. Não há passadiços, nem selfies, mas há cagados do tamanho de prato de sopa a esticar o pescoço sobre a erva. Se se levar os pés descalços sente-se a areia fria, quase negra, que esconde os saquinhos de plástico da última cheia. Ainda assim, a água é tão limpa que os pastores a bebem directamente das mãos.

O sol põe-se atrás do cornio da igreja, onde as andorinhas fazem o último voo antes de se fecharem no beiral. A porta do bar fecha às dezanove e meia — ouve-se o ranger metálico da couraça, depois o silêncio que soa a campainha desligada. Fica o cheiro a lenha verde que arde na chaminé do Sr. Albano, o cão que ladra contra a própria sombra, o granito a ceder o calor que guardou o dia inteiro. A aldeia não dorme: fica na penumbra, como quem aguarda que o sino bata outra vez às sete da manhã e tudo recomece — horta, estrume, pão, caldeirada, procissão, vinho.

Dados de interesse

Distrito
Viana do Castelo
Concelho
Ponte de Lima
DICOFRE
160707
Arquetipo
CULTURA
Tier
basic

Habitabilidade e Serviços

Dados-chave para viver ou teletrabalhar

2023
ConectividadeFibra + 5G
TransporteComboio a 20.6 km
SaúdeHospital no concelho
Educação25 escolas no concelho
Habitação~1128 €/m² compra · 4.93 €/m² renda
Clima15.1°C média anual · 1738 mm/ano

Fontes: INE, ANACOM, SNS, DGEEC, IPMA

ADN da Aldeia

50
Romance
60
Familia
30
Fotogenia
45
Gastronomia
60
Natureza
20
Historia

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Perguntas frequentes sobre Beiral do Lima

Onde fica Beiral do Lima?

Beiral do Lima é uma freguesia do concelho de Ponte de Lima, distrito de Viana do Castelo, Portugal. Coordenadas: 41.7608°N, -8.4807°W.

Quantos habitantes tem Beiral do Lima?

Beiral do Lima tem 500 habitantes, segundo os dados dos Censos.

Qual é a altitude de Beiral do Lima?

Beiral do Lima situa-se a uma altitude média de 362 metros acima do nível do mar, no distrito de Viana do Castelo.

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