Artigo completo sobre Boalhosa: terra de bois, peregrinos e três festas
Freguesia serrana de Ponte de Lima onde os Caminhos de Santiago cruzam vales de Carne Barrosã DOP
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O sino toca ao longe, o som viaja limpo pelo vale do Neiva e perde-se nas encostas cobertas de carvalhos e pastagens. A estrada serpenteia entre muros de pedra solta, casais dispersos, fumeiros escuros onde pende a chouriça. Boalhosa não se anuncia — revela-se aos poucos, lugar a lugar, sem pressa nem centro definido. Aqui, aos 531 metros de altitude, o ar é fresco mesmo em Agosto, e o silêncio tem peso.
Terra de bois e peregrinos
O nome diz tudo: "boal", casa de boi. A freguesia nasceu medieval, documentada desde o século XIII, ligada aos coutos de riba do rio Neiva e à Comenda de São João de Barcellos. As disputas entre as casas de Bragança e os Curutelos passaram por aqui, mas o que ficou foi a terra lavrada, o gado nos lameiros, a memória das rotas que conduziam a Santiago. Hoje, são dois os caminhos jacobeus que atravessam Boalhosa — o Central Português e o Nascente. Os peregrinos cruzam os caminhos rurais, bastão na mão, e seguem entre muros cobertos de musgo e água que corre em levadas estreitas. Às vezes param na fonte da Boalhosa, enchem a garrafa e perguntam quanto falta até ao próximo café. Aqui não há cafés, mas há a fonte e há sempre alguém que lhes indica o caminho.
Três festas, três devoções
A Senhora da Boa Morte, o Senhor da Saúde, o Senhor do Socorro: três invocações que animam a freguesia ao longo do ano. As capelas enchem-se de velas, as procissões sobem os caminhos calcetados, os arraiais estendem-se pela noite com vinho verde servido em canecas de barro e o cheiro a assados que escorre das barracas. São festas sem artifício, feitas pela gente da terra e pelos que regressam no Verão. A missa cantada ecoa pelas encostas, e depois há carne assada, broas de milho ainda quentes, arroz-doce polvilhado de canela. No dia da Boa Morte, os homens levantam-se às cinco para irem buscar lenha de carvalho. As mulheres amassam o pão desde madrugada. Quem vem de fora estranha ver tanta gente num lugar que parece vazio o resto do ano.
Carne Barrosã e prados férteis
O gado pasta nos lameiros que descem até ao Neiva. A Carne Barrosã DOP é criada aqui, nos pastos altos e húmidos, e chega à mesa em rojões avermelhados de colorau, em assados lentos, em cozidos onde a batata absorve o caldo espesso. O pão de milho acompanha, denso e amarelo, e o vinho verde — ligeiramente ácido, fresco — corta a gordura. Não há restaurantes com nome pomposo, mas há quem sirva à mesa, em casas que abrem as portas quando se pede. É preciso saber a quem bater. O Sr. António, se estiver na adega, faz um cacho de rojões que se desfaz na boca. A D. Rosa serve-o numa tigela de barro preta, com um naco de pão que ela própria cozeu no forno a lenha.
Entre lagoas e caminhos antigos
Boalhosa integra a zona de proteção do Monumento Natural das Lagoas de Bertiandos e São Pedro de Arcos, refúgio de garças, rãs e libélulas que riscam a superfície da água ao entardecer. Os trilhos rurais cruzam a freguesia, sobem pelos caminhos de terra batida, abrem vistas sobre o vale onde o Neiva brilha entre amieiros. Nos dias de nevoeiro, a paisagem fecha-se, e só se ouve o sino, o mugido distante, o vento nos ramos. O caminho da lagoa passa mesmo ao lado da capela do Socorro. Quando as crianças iam à escola, cortavam por ali, descalças nos dias de calor, com os livros apertados contra o peito. Hoje a escola fechou, mas o caminho continua. As pedras estão mais polidas, mas é o mesmo de sempre.
A noite cai cedo, e as luzes acendem-se uma a uma nos casais dispersos. O fumo sobe direito das chaminés, cheira a lenha de carvalho, e o frio húmido da serra entra pelos ossos. Boalhosa não pede nada — oferece o essencial: terra, água, silêncio que sabe a pedra antiga.