Artigo completo sobre Calvelo: vinhas, peregrinos e três festas no alto
Freguesia minhota a 175m de altitude onde os Caminhos de Santiago cruzam campos de Vinho Verde
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O sino da igreja é o despertador que ninguém pediu mas toda a gente ouve. Bate as horas como quem tem pressa de ser ouvido antes que o vento do Lima leve a badalada para o outro lado do vale. Calvelo aguenta-se numa encosta a 175 metros, onde o verde dos vinhos e o cinzento do granito se disputam o espaço como velhos casados — já não sabem viver um sem o outro.
Caminhos que atravessam
Aqui o Xacobeu não é só história — é gente com mochila a suar a subida das ruas que parecem ter sido desenhadas por um bêbado. O Central e o Nascente cruzam-se como dois velhos amigos que se encontram no café e não se largam mais. Não há albergue, é verdade, mas há três casas que abrem a porta a quem bate com jeito — uma é da D. Idalina que faz pão de milho aos sábados, outra do Zé Manel que promete "uma cama seca e um café da manhã que aguenta até Compostela". Os peregrinos contam-nos depois nas redes sociais, mas não dizem é que a D. Idalina finge que não quer saber de Instagram mas depois vai lá ver se gostaram do pão.
Entre lagoas e montanha
As Lagoas de Bertiandos ficam ali ao lado, mas Calvelo não vai para lá. É como aquele vizinho que sabe que tens piscina mas só vai quando o convidas. As garças voam por cima das vinhas como se fossem aviões aterracer no Porto, mas aqui ninguém lhes tira selfies — está-se mais preocupado com a vindima. O passadiço é bonito, dizem, mas o verdadeiro passadiço é o muro da quinta do Sr. Albano, que aguenta desde 1937 e ainda não caiu por milagre.
Fé em três tempos
Três festas marcam o ano como quem marca o futebol na televisão: Senhora da Boa Morte (que nome tão português), Senhor da Saúde (aqui ninguém se atreve a gozar) e Senhor do Socorro (que é quando o povoa todo já precisa mesmo). Nessas alturas Calvelo engorda: os emigrantes voltam com os BMW estacionados em cima do passeio, os filhos que foram para a "Margem Sul" fingem que nunca saíram, e as noras de Lisboa perguntam onde fica a casa de banho "moderna". A chouriça frita e os foguetes fazem tanto ruído que até os cães se calam — e os cães de Calvelo não se calam por nada.
À mesa, a montanha e o vale
Não há restaurantes com estrelas Michelin, mas há a casa da D. Lucinda onde o cozido é servido às 13h00 em ponto — se chegas às 13h30, come a sobremesa dos outros. A Carne Barrosã vem da serra, mas as batatas são da horta de trás e o vinho é da garrafa que o sogro guarda "para as visitas". O arroz de cabidela tem cor de terra depois da chuva e sabe a coisa que a avó fazia quando havia galinha para matar. Não se pede conta — paga-se o que se acha justo e leva-se uma garrafa de aguardente para "o frio".
Quando a tarde cai, Calvelo encolhe como gato à porta do forno. O Sr. Carlos fecha o portão da quinta aos berros para a mulher que "já se sabe que a televisão é às oito". Um cão ladra no lugar do costume, outro responde do outro lado do vale, e assim se vai fazendo a conversa até ser hora de jantar. O granito aquecido pelo sol larga o cheiro a pedra e a terra, e o silêncio é tão grosso que se ouve o Lima correr lá em baixo — mesmo que ninguém o veja há 500 anos. Amanhã será igual, sim senhor. E é bom que seja.