Artigo completo sobre Correlhã: onde o Neiva dita o ritmo da terra
Freguesia de Ponte de Lima marcada por levadas, capelas e memórias de prata nas areias do rio
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O som chega antes da imagem: o barulho da água a bater nas pedras do Neiva, aquela música que todos os dias se repete e que, quando se vive lá, deixa de se ouvir. Em Correlhã, o rio é como um vizido que nunca fecha a boca — fala com as pedras, com as azenhas que ainda existem, com os salgueiros que se inclinam para ouvir melhor. Dizem que há quem durma com esta cantiga e quem não consiga fechar olho sem ela.
A tal da cortiça e outras lendas
O nome vem do latim, dizem os livros. Correlhã, terra de cortiça. Mas quem aqui vive sabe que a cortiça nunca pagou contas nenhumas. Já a mina de prata, essa é outra conversa. Abriram-na há séculos, encontraram pouco, fecharam-na. No entanto, ainda hoje há quem vá ao Neiva com peneira na mão, procurando grãos de prata entre a areia. "É como procurar moedas no bolso dos outros", costuma dizer o Zé Manel do café. Fundada no século XII, integrada em Ponte de Lima no XVI, Correlhã sempre foi aquela que ninguém nota no mapa mas que, quando se conhece, não se esquece.
Três capelas e muita festa
Três capelas para três senhores diferentes: a Boa Morte, a Saúde e o Socorro. Parece um concurso de popularidade divina. Cada uma tem a sua festa, a sua procissão, o seu bazar. Nos bazares, ainda se faz a arrematação dos presuntos e dos queixados. O leiloeiro é o Fernando, que trabalha na Câmara mas aos domingos veste a casaca e grita preços como se estivesse a vender o estádio do Benfica. A Igreja Matriz, ali no meio, é como as outras — granito, tempo e um sino que até parece que tem pressa.
O que se come (e se bebe)
A Carne Barrosã já cá cantava antes dos papéis da DOP. Faz-se em rojões com colorau que mancha os pratos, acompanhado de um vinho verde que faz esquecer os problemas. O arroz de sarrabulho é para dias de festa — espesso, escuro, daqueles que ficam no estômago como recordação. O caldo verde é o rei dos dias de inverno: couve da horta, chouriça fumada, um fio de azeite. E nos doces, ainda se faz toucinho-do-céu como a avó fazia — com ovos frescos e açúcar que se derrete na boca antes de se derreter na consciência.
Por onde se anda
O Caminho de Santiago passa por cá duas vezes — o Central e o Nascente. Os peregrinos chegam cansados, perguntam se falta muito para Santiago, bebem uma água e seguem. Os trilhos pelos montes são para os locais e para os turistas que gostam de suar. O Monte de São Simão tem uma vista que compensa o esforço — dá para ver o Neiva a fazer curvas como quem não sabe onde vai. As Lagoas de Bertiandos ficam ali perto, mas isso já é outra freguesia. Dizem que as aves gostam mais daqui porque há menos gente a incomodar.
Cá vivem 2787 pessoas, mas parecem menos. Espalham-se pelos lugares como quem tem pressa de ficar sozinho. Quando o vento vem do norte, traz o cheiro a lenha queimada e à terra molhada. É o cheiro de Correlhã — aquele que nos dias de chuva nos faz querer ir para dentro de casa, mas que nos dias de sol nos faz sair para a eira ver o rio a passar.