Artigo completo sobre Facha: vinhas, granito e memória no Vale do Lima
Facha, em Ponte de Lima, Viana do Castelo, é terra de Vinhos Verdes DOP e Carne Barrosã, onde mil habitantes preservam saberes ancestrais entre vinhas e ca
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O sino da igreja — o mesmo que se ouve às sete da manhã quando ainda está escuro — bate três vezes, depois larga-se. O som não se perde depressa; desce pela "Canada da Igreja", salta o muro do Avelino e morre no regato das Hortas. Em Facha o sino não é tradição, é relógio. Quem nasceu aqui não precisa de olhar para o céu para saber se são horas de almoço ou de missa.
O verde das vinhas não é um cartão-postal; é trabalho. No fim-de-semana podam-se as varas; em Março queima-se a sarça; em Agosto cortam-se as uvas antes do sol picar. Quem passa de carro vê filas perfeitas; quem desce à terra sente o torrão pegar-se às solas e o cheiro do adubo de curtume que os aviões espalham de helicóptero. Aqui não se fala de "terroir", fala-se de "minério": o solo é de xisto e granito, e quando o Lima transborda deixa uma lama que nos anos 80 levou o pão de milho à boca do forno da Dona Aurélia.
Há 1 390 habitantes, mas o número que importa é outro: 23. É o de crianças que esta manhã entraram na escola primária. Quando soa o sinal, a vila inteira parece respirar — as mães param de conversar junto ao talho, o Sr. Aníbal desliga a serra na carpintaria, e até o cão do clube de caça se senta à porta da escola como se soubesse que o futuro ali cabe numa mochila azul.
As festas não são três, são quatro. Falta-vos a da padroeira — Nossa Senhora da Assunção — que antigamente se fazia em Setembro com bodo ao domingo e barracas de bombons de amêndoa. Hoje em dia a procissão é mais curta: desce a Rua de Baixo, vira à esquerda na Igreja Matriz e sobe outra vez. A banda já não tem tuba — foi roubada há dez anos — mas o sousafona do Zé Mário serve perfeitamente. Quando o andor passa à porta da Adega Cooperativa, o presidente da Junta tira a boina, mesmo que seja da oposição.
A Carne Barrosã não chega aos restaurantes de Lisboa; fica cá. O talho do Sr. Luís mata duas vacas por mês, e quem quer pernil tem de encomendar com três dias. A gordura é amarela como o milho e salga-se só com sal grosso de Marinhas. No dia de São Martinho faz-se o "assado da bica" na Praça de Touros abandonada: carne no espeto, vinho tinto em jarros de barro e broa que a D. Odete leva quente dentro do avental.
As Lagoas de Bertiandos ficam a três quilómetros, mas para lá se vai a pé pelo caminho do "Passadiço" — madeiras que rangem quando chove e que o vento de Dezembro levanta. No fim da tarde, quando o nevoeiro desce, ouvem-se as rãs-berreiras como se fossem vacas presas. Leve-se um casaco: o vento vira sempre para Norte e leva o calor das costas sem avisar.
Quem vem a pé para Santiago entra pela "Rua Nova", que não é nova — foi aberta nos anos 50 para o tractor do Padre Anselmo passar com a charrete. Os peregrinos pedem água na fonte da Alameda; ninguém lhes diz que a água vem da mina e é mais fresca que a da torneira. Há três quartos privados: um na casa da Dona Alda (tem colchas de linho e biscoitos de Festas na mesa-de-cabeceira), outro no rés-do-chão do Zé Costa (o cão chamado "Xico" ladra mas não morde), e um terceiro no antigo celeiro do clube de caça — tem janela para a estrada e cheira a feno, mas é o mais barato: 15 euros com pequeno-almoço incluído. Não há Wi-Fi; há uma banca no café que dá sinal se sentar no lado direito.
Às dez da noite desligam-se as luzes da rua. O último tractor estaciona na garagem do "Kiwi" — é assim que chamam ao mecânico — e começa o silêncio de verdade: só se ouve o relógio da torre da igreja, o gotejar do regato e, lá ao fundo, o cão do Sr. Ramalho que ladra à lua porque lhe dá na gana. O cheiro a lenha não vem das chaminés antigas; vem da fábrica de paletes que queima aparas para secar tabuas. Ainda assim, quando o vento vira, leva-o até às janelas e faz lembrar os tempos em que as lareiras tinham pão de ló no forno e o avô adormecia ao som da rádio "Renascença".
Facha não se visita; habita-se. Quem só passa vê vinhas e casas de granito. Quem fica descobre que a pedra mais antiga é a do muro da cemitério — tem uma cruz de 1723 e o nome "Marques" apagado pelo musgo — e que o verdadeiro mapa da freguesia é o que se desenha no balcão do café depois da missa domingo: ali sabe-se quem está doente, quem casou, quem vendeu o tractor e quem ainda guarda garrafas de 99 para o baptizado do neto.