Artigo completo sobre Navió e Vitorino: terra de fumeiros e memória castreja
Duas aldeias minhota fundidas em 90 hectares de socalcos, castros antigos e romarias ancestrais
Ocultar artigo Ler artigo completo
O som chega primeiro: o crepitar da lenha dentro dos fumeiros de granito, o murmúrio constante da água nos regos que descem para o Lima, o tanger metálico do sino da Igreja de Navió a cortar o silêncio verde da manhã. Aqui, na menor freguesia do concelho de Ponte de Lima — noventa hectares contados, terra vermelha que até parece bolo de chocolate —, a paisagem organiza-se em socalcos tão estreitos que o trator tem de fazer meia-volta em três tempos. O milho cresce alto como se quisesse ver o que se passa no vale, as vinhas abraçam-se em ramadas baixas e o ar traz cheiro a terra molhada e, conforme o dia avança, o aroma denso dos enchidos que penduram nas cozinhas de pedra — um perfume que mete água na boca a qualquer um.
Duas aldeias, uma memória partilhada
Navió e Vitorino dos Piães casaram-se em 1836 por decreto, mas continuam com as suas manias. Navió aparece em papéis desde 1120 como "Neviola de Masse Ardega" — um nome que parece receita de bolo — enquanto Vitorino dos Piães vem do latim "Vulturinus", talvez porque os abutres por aqui fossem os verdadeiros senhores do pedaço. Caminhar entre as duas é como folhear um livro de história molhado em vinho verde: os castros do Cresto, de Trás de Cidades e do Alto das Valadas em Vitorino são mais velhos que a sogra da vizinha, a Igreja Paroquial de Navió com o seu cruzeiro aguenta-se de pé desde que o avô do avô do avô era miúdo.
A Capela de São Pedro esconde-se numa curva do caminho como quem não quer ser vista, mas é no Monte de São Simão que se percebe porque é que ninguém se quer mudar daqui. Dali, o olho vai até ao Lima que serpenteia como fita verde entre as hortas. O vento bate de frente, traz o cheiro a resina dos pinheiros e, nos dias de festa, o eco das procissões que soam como o rádio do carro do Zé — longe, mas percebe-se a música.
Ritos que marcam o calendário
As romarias são o nosso Google Calendar. A Festa da Senhora da Boa Morte, o Senhor da Saúde e o Senhor do Socorro — sim, temos três, porque um só não chega para tantos problemas — marcam o ano. Cada aldeia tem as suas parvoíces: Santa Marinha a 18 de julho e o Divino Salvador a 6 de agosto em Navió; São Pedro a 30 de junho, Nossa Senhora de Lourdes e São Simão a 10 de agosto em Vitorino dos Piães. As procissões desfilam por caminhos de terra batida, ladeadas por arcos de flores que as miúdas fazem na véspera enquanto os pais preparão a sardinha. À noite, nas adegas improvisadas junto aos largos, o vinho verde corre mais depressa que o comboio da CP e o rancho folclórico "Danças e Cantares de Vitorino dos Piães" faz-lhe companhia — cantigas que a avó cantava ao colo e que agora os netos ensaiam no WhatsApp.
Sabor a terra e fumeiro
A cozinha por aqui não conheceo termo "fuso horário": come-se quando está pronto e pronto. O sarrabulho fumega nas panelas de ferro como se fosse vulcão em erupção, espesso como lama de alcatrão, temperado com colorau que mancha os dentes — e ninguém se importa. A broa de milho serve de prato, talheres e depois de sobremesa se for preciso. Os enchidos — alheiras que ainda se fazem com pão de um dia, chouriças que estalam na boca, farinheiras que metem medo aos vegetarianos — pendem dos fumeiros até ganharem a casca rugosa e o travo a lenha de carvalho que é o nosso perfume nacional. Nos dias de festa maior, o cozido à portuguesa ocupa a mesa toda: Carne Barrosã DOP que se desfaz no garfo, couves que vieram da horta de manhã, grelos que picam só o suficiente. O vinho verde, leve como conversa de café, lava o paladar entre garfadas — e depois pede-se mais.
Trilhos entre lagoas e peregrinos
A freguesia encaixa-se na Área Protegida das Lagoas de Bertiandos e São Pedro de Arcos como mão na luva — mas uma luva cheia de bichos. Os trilhos pedestres cortam bosques onde os pernetas — os pernilongos, para quem não é da terra — fazem festa, e as lagoas onde garças e patos-reais discutem o melhor lugar para o pôr-do-sol. Mas há outro caminho que por cá passa: o Central Português de Santiago e o Nascente trazem peregrinos de botas gastas e mochilas que parecem conter a casa toda. Param junto às fontes para encher garrafas e contar histórias — umas vezes é o canadiano que não percebe porque é que o café vem numa garrafa, outras é a alemã que acha que a broa é bolo.
Vitorino dos Piães, apesar de parecer que o tempo parou, tem mais vida que o largo de Sábado à noite: extensão de saúde onde a Dra. Ana conhece cada ruga das nossas faces, creche onde os miúdos aprendem a contar em mirandês, centro de dia onde os velhos jogam bisca como se fosse o Mundial — e vinte associações que mantêm a aldeia viva, resistindo ao envelhecimento que os números não mentem: 321 idosos para 160 jovens. Navió, a mais pequena, compensa o tamanho com a fertilidade dos solos — cada palmo de terra produz mais que o ordenado mínimo.
Ao fim da tarde, quando a luz se torna dourada como o vinho do Porto do compadre, o fumo dos fumeiros sobe vertical no ar parado, desenhando colunas brancas contra o verde-escuro das encostas. É esse cheiro — lenha, chouriça, terra húmida — que fica na roupa, no cabelo, na memória. Muito depois de se deixar o vale, quando estiver numa cidade a respirar fumos de escapamento, lembra-se disto como quem se lembra do cheiro da casa da avó — e aperta-se para cá.