Artigo completo sobre Sá: 343 habitantes entre lagoas e caminhos de pedra
Freguesia junto ao Lima onde sinos marcam o tempo e peregrinos cruzam vinhas rumo a Ponte de Lima
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O som dos sinos — os de Sá, não os da matriz de Ponte de Lima — espalha-se pelo vale como se a campaínha fosse de ferro velho. São três badaladas secas, intervalos irregulares, depois mais duas. Ninguém liga ao relógio: quando o sino toca às sete, sabe-se que o padre se atrasou outra vez. A igreja fica no cimo do lombo, mas a voz dela desce logo à Estrada Nacional, entra pela Rua do Cruzeiro e perde-se nas silvas que tapam o Lima.
Entre lagoas e atalhos
Quem vem de forzinho pensa que as lagoas são aqui; não são. São duas paróquias abaixo, mas o vento traz-lhes o melro d’água e o cheiro a turfa. O que há em Sá é a levada que rega o milho e o cheiro a cavalo molhado quando a névoa sobe do rio. Os peregrinos descem a estrada, perguntam “Falta muito para Ponte de Lima?” e ouvem “Virem à esquerda no Cruzeiro, depois é sempre em frente”. Ninguém lhes fala nos atalhos: estão cheios de lama e de cães de guarda.
Três festas, três cheiros
Em Agosto a Senhora da Boa Morte desce da capela de Lanheses e dorme na sacristia de Sá. A noite anterior, o adro cheira a gasolina das geradoras e a sardinha na brasa. No domingo, depois da procissão, as mulheres servem caldo verde em tigela de barro e o vinho tira-se do barril de madeira que o António guarda no celeiro. Em Setembro é a vez do Senhor da Saúde: trazem-nos de Refóios do Lima num tractor coberto de dália. A banda toca o Hino da Carta fora de tom; os rapazes bebem imperiais atrás da igreja e lançam foguetes debaixo das urzes. A terceira festa, em Outubro, é a mais pequena: dez velas, um cântico entoado por três senhoras e o cheiro a cera que se agarra ao casaco durante dias.
Pedra e barro
As casas não são granito puro: são granito misturado com barro, reboco a cair, erva a crescer nas juntas. As janelas são pequenas, mas não por defesa: é porque o vidro era caro e o sol de Julho queima o linho. O xisto serve para feitar o limite das parcelas; empilha-se sem cal, desaba com a primeira chuva torrencial e volta a erguer na manhã seguinte. Quando o sol bate forte, a pedra solta um cheiro a pó e a ovo cozido — é o mesmo cheiro que saía das mãos do avô depois de martelar a foice.
O que não há
Não há café. Havia, na esquina da Rua da Igreja, mas fechou quando a Dona Amélia faleceu. Agora bebe-se o bica em casa do Zé do Pipo, que tem a máquina de cápsulas trazida da França. Não há supermercado: o pão chega às quartas e sábados, trazido numa carrinha descascada que toca a buzina duas vezes. Não há farmácia, nem multibanco, mas há o Correio que abre quando o Sr. Brito tem tempo — às vezes é às dez, às vezes é às três. Quem precisa de gasolina vai a pé até à Quinta do Freixo, enche um jarro de cinco litros e volta com o cheiro a gasóleo nos dedos.
O que ainda existe
Ainda se planta milho para o galo de basto, ainda se guarda o milho no espigueiro de madeira que range quando o vento é de Norte. Ainda se fumeira na cave, com lenha de medronheiro que deita fumo azul. Ainda se ouve o gado a mugir às cinco da manhã e o cão do vizinho a ladrar à Lua. Ainda se vai à missa do domingo só para trocar umas palavras, porque o padre acabou e agora vem um substituto que nem sabe os nomes dos mortos.
Quando o sol se põe atrás do cornos de Santigões, o vale fica cor de ferrugem. O último sino não toca: é o rumor do Lima que soa mais alto, rodando as pedras que ninguém vê. Na cozinha de uma casa qualquer, estala a lenha no fogão, solta-se o aroma do arroz de feijão e do chouriço caseiro que ainda sangra no centro. Não se fotografa isto; não se partilha. Guarda-se na memória dos dedos que partem o pão e na língua que ainda sabe o gosto do sal de Sá.