Artigo completo sobre Vilar das Almas: três freguesias junto ao rio Neiva
Moinhos de pedra, quintas senhoriais e trilhos rurais no extremo sudeste de Ponte de Lima
Ocultar artigo Ler artigo completo
O rio Neiva corre baixo entre margens verdes, e o som da água sobre as pedras mistura-se ao ranger das rodas dos moinhos em Santo António. Aqui, no extremo sudeste de Ponte de Lima, a 142 metros de altitude, Vilar das Almas estende-se por vales e encostas onde o granito aflora entre o milho e as vinhas. A luz da manhã entra oblíqua pelos caminhos rurais, iluminando o musgo que cresce nas paredes dos antigos palheiros, e o ar traz o cheiro a terra húmida e a lenha de carvalho.
Três freguesias numa só
A designação atual esconde uma história mais antiga. Vilar das Almas nasceu da fusão de três freguesias — S. Salvador de Lamas, Santo Estêvão de Riba de Neiva e Santo André de Vilar — que mantiveram autonomia desde antes da fundação de Portugal. O topónimo "Vilar" remete ao povoamento castrejo e romano, mas foi apenas em 1758, no registo paroquial do bispo D. Miguel de Távora, que "das Almas" surge pela primeira vez, associado à ermida que a Irmandade das Almas ergueu no lugar do Outeiro. Em 1855, a freguesia integrou-se definitivamente no concelho de Ponte de Lima, tornando-se a sua ponta mais recuada a sudeste.
Pedra, água e silêncio
A igreja paroquial de Santo Estêvão, reconstruída em 1726 sobre um templo medieval, ergue-se no centro da freguesia com o seu frontão de pedra lavrada e o cruzeiro do século XVIII ao lado. Mas o património de Vilar das Almas não se resume ao religioso: as quintas do Pereiro e de Proence conservam a arquitetura senhorial rural, com portais de granito e brasões desgastados pelo tempo. Junto ao rio, nos lugares do Salgueiral e da Manga, as casas tradicionais alinham-se paralelas às margens, e os moinhos de Santo António — seis no total, segundo o cadastro de 1920 — continuam a lembrar uma economia que durante séculos dependeu da força da água.
Entre vinhas e berços de rio
A proximidade do Monumento Natural das Lagoas de Bertiandos e São Pedro de Arcos confere à região um valor ecológico inegável. Os trilhos rurais que cortam a freguesia seguem o curso do Neiva, atravessando bosquetes de amieiros e salgueiros onde a luz se fragmenta em reflexos verdes. Vilar das Almas integra a região dos Vinhos Verdes, e as vinhas sobem em ramadas tradicionais — os "canes" — produzindo uvas Loureiro e Trajadura que alimentam o vinho jovem e fresco que se bebe nas quintas próximas. A Carne Barrosã DOP, criada nos montes a norte, chega às mesas locais em dias de festa.
Agosto e dezembro em procissão
As festividades religiosas pontuam o calendário comunitário. No primeiro domingo de agosto, a procissão de Santo Cristo percorre 3 km desde a igreja matriz até à capela do Outeiro, passando pela quinta do Proence onde se guarda a imagem do século XVII. A 25 de dezembro, depois da missa das nove horas, os homens da freguesia desfilam com o Menino Jesus pelas ruas de Além-do-Rio, mantendo viva uma tradição que resistiu mesmo quando, nos anos 60, metade da população emigrou para a França.
O traço dos peregrinos
Vilar das Almas inscreve-se nos percursos do Caminho Central Português e do Caminho Nascente, duas variantes do Caminho de Santiago que atravessam o Minho. Os peregrinos que por aqui passam — cerca de 15 mil por ano, segundo a associação de municipios do Minho — deixam o ritmo apressado para trás, ajustando o passo ao compasso do rio e ao silêncio das quintas. O caminho serpenteia entre muros de pedra seca e cruzeiros antigos, conduzindo para norte, na direção de Ponte de Lima, passando precisamente à porta do café O Neiva onde ainda se serve café de moínho.
O eco dos passos sobre a calçada irregular, o murmúrio contínuo do Neiva, o frio húmido que sobe das margens ao entardecer — Vilar das Almas guarda-se na memória como um lugar onde a água comanda o tempo, e onde cada moinho parado é uma partitura suspensa à espera de voltar a tocar.