Artigo completo sobre Vitorino das Donas: paço, mosteiro e memória liberal
Solar setecentista e ruínas beneditinas marcam freguesia ribeirinha de Ponte de Lima
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A cal das paredes do Paço de Vitorino, descascada em bocados que a unha descasca, cega de sol às onze da manhã. Ao fundo, por entre os salgueiros que margeiam o Lima, o barulho da água é o mesmo de sempre — não murmúrio, mas um roçar contínuo de corda na pedra. A escadaria de granito, onde as freiras subiam de manta ao vento, hoje só leva a uma capela que cheira a cera rançosa e a roupa sem estender. A fonte de alabastro pinga devagar; a água é tão fria que dói nos dentes, como quando éramos miúdos e vinhamos aqui de caneca na mão depois da escola.
O mosteiro das donas e a memória enterrada
Vitorino aparece nas Inquirições de 1220 como Sancto Salvatore de Voitorio; o «das Donas» veio depois, das freiras beneditinas que aqui mandavam. O mosteiro que fundaram em 1175, no lugar de Santa Maria do Barco, hoje é um amontoado de xisto onde os currais das ovelhas parecem mais novos que as paredes. Dentro da igreja do Divino Salvador, o cheiro a incenso barato tapa a humidade. Os azulejos contam histórias que ninguém lê — estão demasiado altos, e a luz é má. O retábulo dourado foi roubando ouro aos bocados, dizem que para pagar promessas.
A Junta de Freguesia, construída em 1958, é uma casa como as outras, só com uma bandeira à porta. Por dentro cheira a papel e a café passado. O funcionário, o Sr. Armando, conhece cada pedra do lugar e ainda assim pergunta «de quem é este?» quando alguém estranho aparece.
Ecovia, lagoas e o verde permanente
As Lagoas de Bertiandos ficam ao lado, mas não é aqui que os gansos se metem nos quintais — é mais para cima, onde a água fica parada e os juncos crescem altos como homens. A Ecovia é um caminho de areia batida onde os ciclistas passam de capacete, estranhos às vacas que não levantam a cabeça. No Lugar da Passagem a praia é de areia trazida de camião; a água é fria mesmo em agosto, e os miúdos choram quando os pais os mandam lá dentro.
Os peregrinos que vêm a pé perguntam sempre «falta muito?» e ninguém sabe bem responder — «depende» é o que se diz. Os cruzeiros de pedra estão lá, mas ninguém reza. Os espigueiros são agora decoração, cheios de ninhos de andorinha e cagados de morcego.
Festas que sobem da terra
A Festa da Senhora da Boa Morte é no último domingo de agosto. Começa com uma missa às oito, depois os ranchos dançam no adro até a poeira subir. Há bifanas em pão de caco e cerveja à pressão; os rapazes bebem demais e as mães chamam-nos aos gritos. A feira do Senhor da Saúde, em setembro, tem galinhas presas aos pés e mel em potes de vidro com o rótulo à mão. A doçaria é das freiras de Braga, mas ninguém admite.
O Compasso na Páscoa ainda se faz: o padre vai de casa em casa, e as velhas guardam um pedaço de pão bento no armário, «para não faltar». Os Janeiros são só os netos do Zé Manel, que já não sabem todas as letras mas cantam mesmo assim — levam bolachas e um euro, e vão embora contentes.
À mesa com o Lima
Rojões são de porco cuidado no quintal, temperados no dia anterior. A batata frita é cortada à faca, grossa, e frita em banha de porco — não fica estaladiça, fica macia e molhada. O arroz de lampreia é escuro, quase preto, e mete-se açúcar por cima. O caldo verde leva couve da horta e chouriça de carne de porco, não de toucinho. A Carne Barrosã é vendida no talho da vila; não há muita, e quando há é cara. O vinho verde é branco, do Lima, e bebe-se em jarros de barro que deixam a boca serrada. A aguardente é caseira, guardada em garrafões de cinco litros que só se abrem quando morre alguém ou nasce.
A fonte do Paço continua a pingar. A água é a mesma de sempre; quem bebe não fica mais novo, mas também não fica mais velho.