Artigo completo sobre Cerdal: Encruzilhada de Três Caminhos de Santiago
Freguesia em Valença onde peregrinos se cruzam entre vinhas, granito e o santuário do Faro
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O caminho até Cerdal não tem banda sonora de descoberta. É terra batida, sim, mas também é alcatrão esburacado que escorrega para calçada portuguesa onde o musgo cresce nas juntas como quem aproveita esquecimentos. O cheiro? Dependendo do dia é terra molhada, eucalipto ou o fumo da sardinha que o Sr. Armindo está a assar na garagem aberta — aquela que serve de adega, oficina e sala de visitas. Cerdal não aparece de rompante; espreita entre paredes de granito e quintais onde a roupa estendida é o indicador de vida mais honesto que há. Estamos a 45 metros de altitude, numa espécie de entre-lugar: já não é a várzea do Minho, ainda não é a serra, mas é onde os caminhos de Santiago se engarrafam como trânsito em hora de ponta.
Três Caminhos, Uma Taberna
Dizem que é raro uma freguesia ser atravessada por três caminhos de Santiago. Pois é. O que isso quer dizer na prática é que em abril e outubro há peregrinos a perguntar se o café do Sr. Joaquim serve pequeno-almoço às 6h30 (não serve, mas ele acende a luz na cozinha na mesma). São seis os alojamentos, sim, mas o verdadeiro centro nevrálgico é a taberna da Dona Alda: ali se cruzam o Central, o da Costa e o Nascente, e ali se resolvem os problemas do mundo com um fino e um prato de enchidos que ela guarda "só para os que sabem apreciar". Os peregrinos partem ao amanhecer com a mochila a ranger como velha a reclamar, mas deixam para trás histórias que a Dona Alda conta melhor que eu.
A Festa que Pára o Tempo
A Senhora do Faro não é festa, é compromisso. No primeiro domingo de setembro, o santurário lá no alto recebe gente que nem sabia que vinha. O fumo das chouriças mistura-se com o perfume da D. Aurora — aquela que vende os bolos de leite no adro e que já viu netos dos netes dos que ela serviu quando era nova. Há procissão, há música, há o sino que ecoa como aviso: "estão a ser felizes, aproveitem". Fora destes dias, o santuário é só pedra e silêncio, com vista para o Minho que parece um espelho partido quando o nevoeiro sobe.
Vinha que Sobrevive
Cerdal faz parte da região dos Vinhos Verdes, mas não venha cá procurar quintas com visitas guiadas e lojas de souvenirs. A vinha está nos socalcos que o avô do João ainda lavra, nas latadas onde as umas se protegem do vento como quem se esconde do vizindo chato. O vinho é ácido, sim, mas é também o que acompanha o rojão de porco que a Dona Fernanda serve nas tijelas de barro que herdou da mãe. São 1550 almas, 430 com mais de 65 anos, e uma média de idade que faz com que o médico de família venha duas vezes por semana e leve sempre café da Dona Alda para não perder o hábito.
O que Fica (e o que Não Vai)
Há um monumento classificado, sim, mas o verdadeiro património é o Sr. António que ainda faz rodas de carro de madeira e que ensina o ofício ao neto "para ele não se esquecer de onde veio". Cerdal não tem filtros de Instagram, tem é o pôr do sol que pinta os campos de milho em tons de ouro velho e que faz o peregrino alemão parar para tirar uma foto que ninguém vai perceber. À noite, quando as luzes se acendem uma a uma — porque aqui ninguém acende tudo ao mesmo tempo — ouve-se o ribeiro que corre invisível. É o som de Cerdal: água sobre pedra, como conversa antiga que nunca termina, apenas muda de interlocutor.