Artigo completo sobre Fontoura: Cruzamento de Três Caminhos para Santiago
Freguesia minhota onde convergem rotas de peregrinação, capelas centenárias e arquitectura rural
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sino da Igreja Matriz de São Gabriel soa sobre os campos de milho e as vinhas baixas. Três peregrinos sobem a encosta, bordões a bater na calçada irregular, mochilas às costas, seguindo as setas amarelas pintadas nas ombreiras de granito. Fontoura é um dos raros lugares onde convergem três rotas oficiais do Caminho de Santiago — o Central Português, o da Costa e o Nascente — transformando esta freguesia de 685 almas num nó silencioso de caminhantes que atravessam o Minho rumo à Galiza.
Cinco capelas, uma ribeira
A paisagem desenrola-se em suaves ondulações a quarenta metros de altitude, campos intercalados por bosques de carvalho-alvarinho e sobreiro. A Ribeira de Fontoura serpenteia entre os vales, criando pequenas manchas de verdura onde crescem salgueiros e o som da água se mistura com o canto dos chapins. Percorrer o circuito das cinco capelas — São Gabriel, do Pópulo, São José, Senhor dos Aflitos, Casa Alta — é seguir os passos das "chapeladas", romarias a pé que as comunidades locais ainda mantêm, deslocando-se aos nichos religiosos em dias de novena.
Na capela do Senhor dos Aflitos, ex-votos de barcos em miniatura pendem do tecto, recordação da ligação antiga ao rio Minho e aos pescadores que aqui pediam protecção antes de lançar as redes. A devoção materializa-se em madeira pintada de azul e branco, réplicas de traineiras que nunca navegaram mas guardam a memória das que o fizeram.
Talha dourada e casas senhoriais
A Igreja Matriz, reconstruída no século XVIII, ergue-se no centro da freguesia com o seu retábulo barroco em talha dourada. A luz da tarde entra pelas janelas altas e incendeia os anjos esculpidos, os ramos de videira entalhados, as volutas que sobem até ao tecto. Ao lado, a Quinta de São Gabriel mantém a fachada senhorial de pedra lavrada, portão de ferro forjado, jardim murado onde crescem hortênsias e cameleiras.
A Casa do Gonçalo, exemplar de arquitectura rural minhota, exibe o alpendre largo, o forno de lenha ainda em uso, o espigueiro de granito onde o milho seca ao vento. São 417 edifícios para menos de setecentos habitantes — números que revelam a dispersão do povoamento, pequenos aglomerados de casas baixas separados por campos de cultivo e caminhos de terra batida.
A broa que acorda a aldeia
É ao sábado, por volta das sete da manhã, que o cheiro da broa a cozer escapa do forno da Dona Alda. O aroma vai-se abrir caminho pelas ruas de terra batida, desliza pelas frestas das janelas de madeira pintada de verde, acorda até o cão do Sr. Arménio que ladra três vezes antes de se rolar de volta ao sol. Quem passa à porta da padaria — que é só um balcão na cave da casa — ouve o estalo da massa a bater na bancada de madeira, o som seco do milho a moer-se.
A broa de Fontoura não é doce como na cidade. É salgada, densa, com a crosta dura que parte em lascas quando a partes ao meio. A Dona Alda enrola-a num papel de estrada, ainda fumegante, e entrega-a a quem chega com as mãos frias. "Comam enquanto está quente", diz ela, "que o milho é nosso e o forno é de pedra que o meu avô construiu".
Nos dias de festa, são os rojões que tomam conta das cozinhas. O colorau tingido de vermelho-alaranjado frita-se no azeite da terra, junta-se o alho espremido na pedra, o louro do quintal. O fumo sobe pela chaminé de barro e deixa o casco do chapéu do Sr. Joaquim a cheirar a fogo durante três dias.
Festa de São Gabriel e Senhora do Faro
No domingo seguinte a 29 de Setembro, a Festa de São Gabriel traz a procissão pelas ruas estreitas, missa cantada, arraial com danças tradicionais e comes e bebes que se estendem pela noite. Em Agosto, a Festa da Senhora do Faro ilumina a capela homónima com velas e lanternas de papel, a procissão nocturna avançando devagar entre os campos, rezas murmuradas, silêncio apenas quebrado pelo arrastar dos pés na terra seca.
Quando os peregrinos partem ao amanhecer, levam consigo o eco do sino de São Gabriel, o sabor do Alvarinho, a imagem dos barcos de madeira suspensos na capela — três caminhos que aqui se cruzam, três rotas que seguem para norte, deixando Fontoura novamente só com as suas vinhas, a sua ribeira, o granito das ombreiras marcado pelas setas amarelas que apontam sempre em frente.