Artigo completo sobre Amonde: Cascatas, Pontes Românicas e Romarias na Serra
Freguesia minhota entre o rio Âncora e a Serra d'Arga, com património medieval e tradições vivas
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O som chega primeiro: o bater surdo da água na rocha de granito, acompanhado pelo chilrear agudo dos chapins-azuis entre os carvalhos. A Cascata do Pincho despeja-se quinze metros abaixo, formando poços redondos onde a luz da manhã rebenta em fragmentos verdes. A cem metros de altitude, entre o vale do Âncora e as encostas da Serra d'Arga, Amonde tem 231 habitantes distribuídos por Casal, Tourim e Pincho — lugares onde o granito cinza-escuro domina muros, cruzeiros e pontes.
A Ponte Românica de Tourim ergue-se sobre o Âncora desde os séculos XIII ou XIV, um único arco de volta perfeita com paramentos irregulares que testemunham a antiga via entre Braga e a Galiza. A lenda diz: conta os doze degraus de cada lado sem te enganares e o desejo realiza-se. Os mais velhos garantem que ninguém acerta duas vezes. No centro da aldeia, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário exibe o barroco setecentista na talha dourada do retábulo e nos painéis de azulejo que cobrem as paredes laterais. É aqui que o Caminho da Costa deposita os peregrinos, oferecendo-lhes um selo único com a Virgem do Rosário estampada a tinta vermelha.
O calendário das romarias
No primeiro domingo de outubro, a Festa das Rosas enche o adro de bancas de queijo de cabra, broa de milho e licor de medronho. A procissão avança devagar, ao ritmo da concertina e das vozes graves que entoam o terço cantado. Em agosto, os habitantes descem a Viana do Castelo para a Romaria de Nossa Senhora d'Agonia, as mulheres envergando o traje completo de lavradeira — saia preta, avental bordado, lenço de seda ao pescoço. A 5 de agosto, celebra-se Nossa Senhora das Neves na capela seiscentista do Casal, onde o padre ainda benze os campos de milho e as vinhas que produzem o Vinho Verde da marca "Amonde Verde", branco de Loureiro e Arinto.
Comer devagar
Os rojões à minhota cozinham em lume brando, cubos de carne de porco estufados com toucinho, fígado e sangue, temperados a vinho branco e alho. As papas de sarrabulho, espessas e escuras, aquecem o inverno com farinha de milho, enchidos e sangue de porco. Nos dias de festa, servem-se bacalhau à Brás — lascas fritas com cebola, pimento e ovo escalfado — e toucinho-do-céu húmido de amêndoa e gema. A broa de centeio sai do forno de lenha com a crosta estaladiça, perfeita para embeber no azeite novo.
Andar pelo rio
O Trilho do Âncora estende-se por oito quilómetros até Vila Praia de Âncora, seguindo a levada entre hortas, vinha baixa e moinhos de pedra desactivados. Na margem, garças-reais esperam imóveis, mergulhões-de-pescoço-preto mergulham no inverno, e o milhafre-real risca o céu em círculos lentos. A três quilómetros, a Serra d'Arga sobe a 825 metros, atravessada por trilhos entre bosques de carvalho-alvarinho, lagoas temporais e pastagens onde o gado marinho pasta solto.
Ao fim da tarde, o Largo do Adro enche-se do som grave dos tambores: o grupo "Batuque no Âncora" ensaia às quartas-feiras, marcando o ritmo sobre a terra batida da única rotatória da freguesia — sem semáforos, sem rotundas. O eco percorre os muros de granito, atravessa a oliveira centenária de seis metros de perímetro no Casal, e perde-se no murmúrio contínuo da cascata.