Artigo completo sobre Covas: Entre Vales e Vinhas no Coração do Minho
A freguesia de Covas preserva tradições ancestrais, arquitetura religiosa barroca e paisagens rurais
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O sino da Igreja Matriz bate três pancadas secas sobre o vale. O som atravessa o ar húmido da manhã, ricocheteando nas paredes de granito das casas e perdendo-se entre os campos de milho que descem em socalcos até ao leito invisível do ribeiro. Em Covas, a 161 metros de altitude, o dia começa sempre assim: com o bronze a marcar as horas e o cheiro a lenha que sobe das lareiras onde ferve o caldo verde. A bruma ainda não se levantou completamente, mas já se adivinha o verde carregado das vinhas e o cinza escuro dos espigueiros que pontuam a paisagem como sentinelas de madeira e pedra.
Onde o xisto guarda memória
A história humana deste território remonta ao Calcolítico, com achados arqueológicos na Quinta de Água Branca que atestam ocupações milenares. Mas é no período medieval que Covas ganha corpo documental, reconhecida oficialmente no século XIII como ponto de passagem em rotas de peregrinação e comércio. O topónimo deriva do latim cova — depressão, esconderijo — e não é difícil perceber porquê: a freguesia acomoda-se em vales e pequenas elevações, protegida pela geografia, longe dos grandes eixos mas sempre vigilante. Até meados do século XX, a feira mensal de gado atraía comerciantes da Galiza e do Alto Minho, enchendo as ruas de vozes em galego e português, de mugidos e negociações à sombra dos carvalhos.
A Igreja Matriz ergue-se no centro da aldeia com a sobriedade barroca característica do Entre-Douro-e-Minho. Construída em 1742, substituindo uma capela medieval anterior, os seus retábulos dourados contrastam com a pedra fria das paredes, e a luz que entra pelos vitrais recorta formas geométricas no chão de lajes gastas por gerações de joelhos. Mais discretas mas igualmente presentes, as capelas de São João e de Santa Luzia marcam os limites da freguesia, pequenos oratórios onde ainda se acendem velas nos dias de promessa. Os cruceiros setecentistas, talhados em granito de Arga, erguem-se nos cruzamentos como sinais de uma fé enraizada na terra tanto quanto as vinhas.
Festa, fogo e fogueira
16 de agosto é o dia de São Roque, e a freguesia transforma-se. A procissão percorre os caminhos entre as casas, os foguetes estouram contra o azul do céu, e à noite o arraial acende-se com música tradicional e o cheiro a sardinha assada na brasa. Em junho, a Festa de São João traz as fogueiras ao adro da igreja, os bailaricos prolongam-se até de madrugada, e as crianças saltam sobre as brasas já mornas enquanto os mais velos bebem vinho verde fresco e recordam outros verões. As Festas Concelhias em honra de São Sebastião, a 20 de janeiro, reúnem as várias freguesias de Vila Nova de Cerveira numa celebração que mistura o sagrado e o profano, procissões solenes e tasquinhas improvisadas onde circulam rojões à minhota e papas de sarrabulho.
Sabor a barro e fumo
A cozinha de Covas é a do Minho profundo: cabrito assado no forno de lenha, a pele estaladiça pelo sal grosso e os raminhos de alecrim; rojões com colorau servidos a fumegar ao lado das papas de sarrabulho, densas e escuras; caldo verde onde o chouriço caseiro liberta o seu óleo alaranjado. A broa de milho, ainda quente, parte-se com as mãos e come-se com queijo de cabra curado. Na sobremesa, os doces de ovos e os papos de anjo perpetuam receitas conventuais, acompanhados por um cálice de aguardente de medronho ou licor de castanha. O vinho verde da sub-região de Monção e Melgaço é presença obrigatória à mesa, servido em copos pequenos, gelado, com aquele travo ligeiramente ácido que corta a gordura da carne.
Trilhos entre o xisto e o verde
Covas integra o Caminho de Santiago — Caminho da Costa —, um dos troços mais rurais e silenciosos do percurso. O caminho entra na freguesia por caminhos de xisto ladeados por muros de pedra solta, atravessa campos de milho onde o vento faz ondular as folhas, passa junto aos espigueiros comunitários e segue entre vinhas até desaparecer na curva seguinte. Não há multidões aqui, apenas o som dos próprios passos e, ocasionalmente, o ladrar distante de um cão. A biodiversidade é discreta mas presente: javalis deixam marcas na terra húmida, raposas cruzam os caminhos ao anoitecer, aves de rapina planam em círculos sobre os vales. Do miradouro do Monte do Castelo, a vista abre-se sobre o vale do Minho e, ao fundo, o perfil recortado da serra da Peneda.
A tarde cai devagar, e o cheiro a fumo de lenha volta a subir das chaminés. Nos quintais, os espigueiros projetam sombras compridas sobre a terra batida. Alguém fecha a porta de um estábulo, o ferro range contra o ferro. Em Covas, não é o relógio que marca o ritmo — é o sino, o fumo, o cair da luz sobre o granito frio.