Artigo completo sobre Gondarém: onde o Caminho da Costa encontra o Minho
Freguesia de passagem e permanência entre vinhas, peregrinos e festas de santos
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O bordão de madeira ressoa no granito irregular da calçada. Um peregrino ajusta a mochila às costas, consulta a vieira amarela pintada num muro de xisto e prossegue em direcção ao rio Minho. Gondarém acorda com este ritmo antigo — o dos passos que atravessam a freguesia rumo a Santiago, seguindo o traçado da Costa que aqui se confunde com os caminhos agrícolas e as estradas vicinais. O sol da manhã recorta os perfis das casas de granito, enquanto o cheiro a terra húmida se mistura com o fumo tênue de alguma lareira matinal.
No ritmo dos que passam e dos que ficam
A freguesia vive numa dupla cadência. Por um lado, os 909 residentes organizam o quotidiano entre os 686 hectares de terreno ondulado, a uma elevação média de pouco mais de cem metros sobre o nível do mar. Por outro, os peregrinos que atravessam o Caminho da Costa introduzem um fluxo sazonal de rostos desconhecidos, conversas em línguas estrangeiras e pedidos de água fresca. Os 27 alojamentos — entre apartamentos e moradias — acolhem tanto os caminhantes como as famílias que procuram a margem do Minho nos meses mais quentes. Não há multidões nem selfie sticks; há, isso sim, uma densidade de 132 habitantes por quilómetro quadrado que permite que todos se conheçam pelo nome próprio.
Calendário de santos e arraiais
O ano marca-se pelas festas. São Roque, São João e São Sebastião pontuam o calendário com procissões que saem da igreja paroquial e percorrem as ruas estreitas, enquanto os andores oscilam ao ritmo dos homens que os transportam. Nos arraiais, as luzes coloridas penduradas entre os plátanos iluminam rostos de todas as idades — os 103 jovens correm entre as barracas de comes e bebes, os 260 idosos ocupam os bancos de madeira junto às mesas compridas. A música ao vivo ecoa pela noite adentro, mas às duas da madrugada o silêncio regressa como uma cortina pesada, devolvendo Gondarém ao murmúrio dos grilos e ao farfalhar das vinhas.
Verde que se bebe
A paisagem de Gondarém inscreve-se na região demarcada dos Vinhos Verdes. As videiras estendem-se em ramadas baixas ou trepam latadas altas, consoante a tradição de cada parcela. Não há aqui produtos com selo DOP ou IGP registados na freguesia, mas a cozinha minhota está presente nas mesas: o bacalhau desfia-se em postas espessas, a lampreia — quando a época permite — chega do rio com o seu sabor intenso a lodo e corrente, os rojões à minhota surgem dourados e perfumados a colorau. Nos dias de festa, os doces conventuais ocupam as bancas das associações locais, com as suas formas geometricamente perfeitas e o açúcar que adere aos dedos.
Geografia de passagem e permanência
A posição ribeirinha do concelho de Vila Nova de Cerveira confere a Gondarém uma vocação de território de passagem. O Caminho da Costa serpenteia entre campos cultivados e bosquetes de carvalhos, aproximando-se e afastando-se da linha do Minho conforme o relevo dita. Quem caminha por aqui atravessa uma geografia discreta: sem miradouros espectaculares nem cascatas imponentes, mas com a constância tranquila dos muros de xisto que delimitam propriedades centenárias e dos poços de rega que ainda funcionam.
O vento da tarde agita as folhas das videiras e transporta o som distante de um tractor que lavra um campo ao fundo do vale. Um peregrino senta-se à sombra de um carvalho, descalça as botas e massaja os pés doridos. Na soleira de uma casa, uma mulher estende roupa num arame — camisas brancas que se enchem de ar como velas improvisadas. Gondarém não pede pressa. Aqui, o ritmo mede-se pelo tempo que leva a secar a roupa ao sol ou pela distância entre uma vieira amarela e a próxima.