Artigo completo sobre Loivo: sinos, vinhas e peregrinos rumo à Galiza
Loivo, em Vila Nova de Cerveira, Viana do Castelo, preserva tradições centenárias entre vinhas, memórias da Restauração e o Caminho da Costa de Santiago ru
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O som dos sinos da igreja atravessa os campos num final de tarde de agosto, chamando à procissão de S. Roque. Entre as casas de granito, as mulheres acendem velas nos nichos das portas enquanto o cheiro a cera mistura-se com o aroma a terra quente e a videiras maduras. Loivo respira ao ritmo das estações e das festas que, desde há séculos, marcam o calendário desta freguesia de oitocentos e trinta e quatro habitantes, estendida por pouco mais de quinhentos hectares de encosta a cento e setenta metros de altitude, a meio caminho entre o vale do Minho e as serras interiores.
Memória gravada em pedra
A história da freguesia remonta ao século XIII, quando as primeiras comunidades medievais se fixaram neste território de nome possivelmente latino — Lavio, alusão a características do terreno que o tempo erodiu mas o topónimo conservou. Em 1643, durante a Restauração, o comandante Gaspar Mendes liderou aqui a defesa contra tropas espanholas, episódio que ficou gravado na memória local e nas "Alminhas do Pedroso", pequeno cruzeiro de granito que ainda hoje se ergue junto ao caminho. A poetisa cerveirense Rosa Varela, que viveu parte da vida em Loivo até falecer em 1968, dedicou ao lugar o poema "Alminhas do Pedroso", mantendo viva a ligação entre a palavra e a pedra, entre o verso e o combate esquecido.
Entre vinhas e peregrinos
Loivo integra a região demarcada dos Vinhos Verdes, e os campos verdes que descem em socalcos testemunham a vocação agrícola que persiste. Não há aqui adegas turistificadas nem rotas sinalizadas, mas os quintais guardam parreiras antigas e o trabalho manual que define o ritmo das colheitas. A freguesia faz parte do Caminho da Costa de Santiago, e os peregrinos que atravessam as ruas estreitas em direcção à Galiza deixam no ar uma inquietação passageira — mochilas às costas, bordões batendo na calçada irregular, olhares cansados mas atentos à sombra das árvores e ao murmúrio das ribeiras que correm para o Minho, a três quilómetros dali.
Festas que reúnem gerações
As celebrações de S. Roque, de São João e as festas concelhias em honra de S. Sebastião trazem de volta quem partiu e juntam as cento e seis crianças às cento e noventa e cinco pessoas com mais de sessenta e cinco anos. Procissões, música de filarmónica, foguetes que ecoam no vale — a densidade populacional, de cento e sessenta e dois habitantes por quilómetro quadrado, multiplica-se nessas noites de Verão em que as mesas se estendem pelas ruas e o fumo das grelhadas sobe devagar no ar parado.
Quotidiano sem espetáculo
Não há aqui praias fluviais nem trilhos homologados, apenas caminhos de terra batida entre campos de milho e hortas cercadas por muros de xisto. A Igreja Paroquial de Loivo, único imóvel de interesse público registado, mantém as portas abertas nas manhãs de domingo, e o interior fresco oferece refúgio ao calor de Agosto. A proximidade de Vila Nova de Cerveira — castelo, Bienal de Arte, Aquamuseu do Rio Minho — funciona como contraponto urbano, mas Loivo resiste na sua escala menor, nos dezoito alojamentos discretos que acolhem quem procura o contrário do monumental.
A luz do entardecer roça o granito das alminhas e desenha sombras compridas nos campos. Um cão ladra ao longe, o vento traz o cheiro a lenha acesa num fumeiro invisível, e a estrada estreita continua vazia até ao horizonte verde, exactamente como estará amanhã.