Artigo completo sobre Reboreda e Nogueira: cúpula aos pedaços no adro
União de freguesias entre carvalhos, moinhos de Gávea e memória medieval no Alto Minho
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O sino da igreja de Reboreda toca ao meio-dia e o som atravessa os campos de milho, sobe a encosta onde os carvalhos se agarram ao xisto e volta a descer até ao adro, onde vinte e cinco toneladas de pedra barroca aguardam, dispostas como um puzzle gigante de cento e cinquenta blocos. A cúpula destruída por um raio em março de 2022 repousa agora no chão, cada fragmento numerado, à espera de regressar ao alto da torre. É uma imagem estranha — a história desmontada, pronta a ser refeita.
Dois nomes, uma só memória
A união de Reboreda e Nogueira, formalizada em 2013, juntou duas freguesias que sempre partilharam o mesmo território rural mas guardaram identidades próprias. Reboreda deve o nome aos carvalhos que outrora dominavam a paisagem — ainda hoje há quem aponte para os exemplares que resistem nas bordas dos campos e repita "eram mais, muito mais". Nogueira, por sua vez, carrega um título medieval: foi elevada a vila em 1080 por D. Afonso VI de Leão e chegou a ser Couto da Casa de Bragança. O pelourinho que ali se conserva, em granito gasto pelo tempo, continua a assinalar essa antiga dignidade.
Nos limites da freguesia corre o rio Minho, discreto mas presente. Pequenos afluentes atravessam terras de cultivo e alimentam moinhos de Gávea que já não moem mas permanecem de pé, estruturas de pedra e madeira que testemunham outra forma de habitar o território. O trilho que os liga é curto, percorre-se numa tarde, mas permite ver a engenharia simples que aproveitava cada gota de água.
Pedra que fala
A igreja matriz de Reboreda é românica, compacta, com paredes espessas onde a luz entra a custo. Ali perto ergue-se a Torre de Penafiel, marcada por inscrições medievais que o tempo não apagou de todo. Em Nogueira, a igreja paroquial data de 1653 e divide o espaço com duas capelas — a de S. Sebastião e a do Senhor dos Aflitos — e um cruzeiro que assinala o centro do lugar. O monte das Carvalhas oferece vistas largas sobre o vale, onde se adivinha o traçado do Caminho de Santiago da Costa, que atravessa a freguesia em direcção ao litoral.
Há ainda o castro agrícola de Chã de Agoeiros, estrutura antiga que foi reaproveitada ao longo dos séculos para cultivo. A toponímia local preserva o nome de Gontige, freguesia extinta mas não esquecida, que ainda aparece em conversas de café e placas de caminhos desbotadas pelo sol.
Calendário de santos e romarias
As festas concelhias em honra de S. Sebastião trazem gente de fora, mas são as celebrações locais que definem o ritmo do ano. A Festa de S. Roque e a de São João em Reboreda enchem as ruas de música e barraquinhas. A 25 de julho, dia de S. Tiago, Nogueira organiza uma romaria que atrai peregrinos e curiosos. O Rancho Folclórico e Etnográfico de Reboreda, o mais antigo do concelho, mantém vivas as danças e os trajes que já não se veem no quotidiano — apesar de hoje em dia ser mais fácil encontrar os bailarinos no supermercado de Caminha do que nos campos.
À mesa, os enchidos de porco dominam, acompanhados por vinho verde da região — a freguesia integra a zona de produção desta IGP. Quando é época, aparecem o arroz de lampreia e o debulho de sável, pratos que dependem dos ciclos do rio e exigem paciência na preparação. O problema é que a lampreia já não sobe o Minho como antigamente, e quem a quer tem de conhecer quem ainda pesca nos sítios certos.
Caminho e permanência
Os peregrinos que seguem a Costa passam por aqui sem grande alarde. Caminham entre casais, cruzam-se com tractores, bebem água nas fontes. A paisagem é suave, de relevos que mal ultrapassam os noventa metros, mas há uma continuidade visual que acalma — campos, carvalhos dispersos, muros de pedra solta, o Minho ao longe como uma linha prateada. Muitos nem reparam que estão a atravessar uma das freguesias mais pequenas do concelho, com menos gente que uma fila para o pastel de nata em Lisboa.
No adro de Reboreda, o puzzle de pedra barroca continua à espera. As crianças passam a correr, tocam nos blocos, perguntam quando é que a cúpula volta ao sítio. Ninguém sabe ao certo. Mas ali, entre o sino que toca e a pedra que aguarda, há qualquer coisa que resiste — não apesar do tempo, mas através dele. Como o velho do café diz: "cá estaremos nós, e as pedras também".