Artigo completo sobre Favaios: pão alentejado, moscatel e vinhas de xisto
Aldeia vinhateira de Alijó onde a tradição do pão se encontra com o vinho moscatel do Douro
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A primeira coisa que se sente é o cheiro a pão quente. Não um aroma vago de padaria — é denso, com a crosta a estalar algures dentro de um forno a lenha, e mistura-se com o ar seco da manhã a mais de quinhentos metros de altitude. Em Favaios, o pão tem nome próprio: pão alentejado de Favaios, redondo, de massa fermentada lenta, com uma côdea dourada que cede sob os dedos e um miolo que pede apenas um fio de azeite e uma raspa de alho. Come-se ao balcão, come-se na soleira da porta, come-se na adega cooperativa enquanto se prova o primeiro copo de moscatel do dia. É assim que esta aldeia vinhateira acorda — entre farinha e mosto.
O nome que veio do feijão
Favaios aparece em documentos medievais como "Fafanes", um eco distante que se foi moldando até ao topónimo actual, derivado do latim faba — feijão —, lembrança de uma vocação agrícola que precede em séculos a vinha. A freguesia ganhou autonomia administrativa em 1927, desanexando-se de Santa Eugénia, mas a sua ligação ao Douro é muito mais antiga. Até ao século XIX, uma ponte de barcos ligava as duas margens do rio, e por ali passavam pipas de aguardente e vinho rumo ao Porto. Hoje, com 937 habitantes segundo os Censos de 2021, Favaios integra o perímetro do Alto Douro Vinhateiro, classificado pela UNESCO como Património Mundial desde 2001, e pertence à rede das Aldeias Vinhateiras — distinção que sublinha o que qualquer visitante confirma ao primeiro olhar: aqui, tudo gravita em torno da vinha.
Retábulos dourados e paredes de xisto
A Igreja Matriz de S. Bento domina o centro da aldeia com a sobriedade de um templo setecentista de nave única. Lá dentro, a luz entra filtrada e bate no retábulo barroco policromado, fazendo cintilar os dourados gastos pelo tempo, enquanto painéis de azulejo do século XVIII revestem as paredes com cenas que o olho demora a decifrar na penumbra. A poucos passos, o Largo do Cruzeiro organiza a vida social: um coreto em ferro fundido, um cruzeiro granítico do mesmo século, bancos de pedra onde se conversa ao fim da tarde. À volta, as casas de lagar e celeiros em xisto escuro compõem uma arquitectura funcional que não precisa de ornamento — a textura rugosa das paredes, o musgo verde nas juntas, os portões de madeira gretada pelo sol dizem tudo sobre gerações de trabalho vinícola.
A Capela de Nossa Senhora dos Aflitos, pequeno santuário setecentista erguido no alto, é ponto de romaria no segundo domingo de Maio, quando a procissão serpenteia entre as ruas estreitas e o arraial se enche de tasquinhas e grupos folclóricos. Em Setembro, a Festa de Nossa Senhora da Piedade — antiga feira de gado reconvertida em romaria popular — fecha o ciclo festivo antes das vindimas.
O lagar onde os pés ainda pisam
Existe em Favaios um lagar comunitário de travesseiro de madeira que esteve em uso até aos anos 1950, quando a uva se pisava descalço e o mosto escorria para a talha de granito. Ainda é visitável, e em época de vindima há demonstrações sazonais do processo — o contacto dos pés com a polpa fria, o cheiro acre do sumo fresco, o som ritmado da prensa. É uma experiência táctil que nenhum ecrã substitui. A poucos metros, o Centro de Interpretação do Moscatel explica com maquetas de lagares e ferramentas antigas a história do vinho generoso que deu fama à aldeia. Porque Favaios é uma das poucas localidades em Portugal onde se produz exclusivamente moscatel branco — um generoso de aroma floral e doçura equilibrada, vinificado nas encostas xistosas que descem até ao rio Pinhão.
A Cooperativa Agrícola de Favaios, fundada em 1952 por Maria da Conceição Gomes para organizar os viticultores locais, está entre as maiores do país em volume de moscatel e oferece visitas guiadas com degustação de moscatel novo e envelhecido, acompanhada, claro, de pão alentejado. Foi aqui que o enólogo Manuel Monteiro, nos anos 1980, introduziu a vinificação em aço inoxidável, abrindo caminho à afirmação do moscatel de Favaios nos mercados internacionais.
Socalcos até ao Pinhão
Saindo da aldeia pelo percurso pedestre "Entre Vinhas e Xistos" — sete quilómetros assinalados que ligam o cruzeiro de Favaios ao miradouro de Vilar de Maçada —, o corpo entra noutro ritmo. O caminho atravessa olivais de tronco torcido, cerejais que em Abril rebentam de branco, e patamares de vinha em socalcos que descem até à mata de galeria do rio Pinhão, onde choupos, amieiros e salgueiros formam uma cortina verde sobre a água. De manhã cedo, garças e melros movem-se entre as margens, e ao longe recortam-se os cumes quartzíticos da Serra do Alvão, acima dos mil metros, responsáveis pela frescura nocturna que concentra os açúcares nas uvas.
O clima mediterrânico continental seco — verões tórridos, invernos cortantes — molda não só a vinha mas toda a mesa. A sopa de feijão branco com couve galega, chouriço de carne e azeite é prato de Inverno que aquece como uma lareira. O coelho à caçador, estufado em vinho tinto da região com louro e noz-moscada, acompanha-se de broa de milho e centeio saída do forno comunitário. Nos finais de vindima surgem as filhoses de abóbora, e nas festas o bolo de noivos com amêndoa e gema. Os enchidos — chouriço, salpicão, morcela de arroz — fumam lentamente nas chaminés de xisto, e o aroma impregna as ruelas nas tardes frias de Novembro, quando o magusto de São Martinho junta castanhas assadas e água-pé à volta da fogueira.
Máscaras no Inverno, moscatel no copo
Há uma tradição em recuperação que devolve a Favaios um rosto arcaico: os Caretos. No Inverno, grupos mascarados percorrem as casas, praticam a sorte do ano e recebem oferendas — um ritual que mistura o sagrado e o profano com a mesma naturalidade com que a aldeia mistura o pão e o vinho. O cinema português também o percebeu: em 2001, cenas do filme O Pão e o Vinho foram rodadas aqui, entre socalcos e casas de xisto que não precisaram de cenário.
Na noite de Reis, os grupos das Janeiras percorrem as ruas, e o som das vozes sobe pelas vielas de xisto até se perder no silêncio do planalto. Quem fica na aldeia — nos alojamentos locais, entre apartamentos e moradias de pedra — acorda ao dia seguinte com a mesma sequência: o estalar da côdea no forno, o tinir de um copo de moscatel a ser pousado no balcão de granito, e aquele perfume espesso, entre a farinha quente e a uva madura, que não se encontra a mais nenhuma altitude senão esta.