Artigo completo sobre Pegarinhos: vinhas em socalco e sinos no Alto Douro
Conheça Pegarinhos, freguesia de Alijó em Vila Real com vinhas em socalco, lagares tradicionais e capelas rurais no coração do Alto Douro Vinhateiro.
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O sino da Igreja de São Pedro toca ao meio da manhã e o som vai-se abaixo como quem desce a rua principal — a mesma que tem duas casas com muro novo e três com a porta trancada desde 2003. Aqui, a 544 metros de altitude, Pegarinhos distribui-se por quase 19 quilómetros quadrados de encostas que parecem escadas feitas por quem tinha pressa, onde menos de 400 pessoas guardam um modo de vida que resiste melhor ao WhatsApp do que ao envelhecimento. O ar cheira a terra revolvida e, no Outono, a mosto que fermenta nos lagares onde o Zé do Carmo ainda bate com a mão no balseiro para ver se está no ponto.
Pegadas no Douro interior
O nome, dizem os mais velhos, vem daqui se andar sempre a "pegar" nos carrinhos — os socalcos são estreitos e um pé em falso é ir parar ao matagal três metros abaixo. Oficialmente existe desde 1836, mas o que interessa é que faz parte do Alto Douro Vinhateiro sem precisar de papel. A densidade populacional — pouco mais de 20 habitantes por quilómetro quadrado — traduz-se em vizinhos que se cumprimentam pela matrícula do carro, porque sabem que só passam ali duas vezes por dia: de manhã para o trabalho e à noite para casa.
Fé talhada em xisto
A Capela do Senhor Jesus da Capelinha, em Vilar de Maçada, é do tamanho de uma sala de jantar, mas em Agosto enche-se mais que o café do Lamego no dia do São João. A procissão sobe a pé desde o lugar de baixo, e quem vai de carro é porque tem problema nas pernas ou na cabeça. As outras capelas — Nossa Senhora dos Aflitos e Nossa Senhora da Piedade — estão onde sempre estiveram: no sítio mais alto, porque quem tem fé sabe que subir faz parte do acordo. A Igreja Paroquial tem a porta que range no mesmo sítio há 50 anos e o padre que vem de carro que parece que vai abrir em duas partes a cada lomba.
Sem rótulo, com tradição
Não tem DOP nem IGP, o que para quem cá vive é conversa para turista. O vinho é daquele que se serve num copo de água e se pede outro antes de acabar o primeiro. A posta mirandessa vem do talho do Fernando que ainda corta à faca e pesa na balança de dois pratos — "é para ver se está boa, não é para pagar menos". A castanha é tanta que em Outubro se faz tábuas de três metros só com os casulos, e a sopa é tão grossa que o pão fica de pé. O javali é do vizinho que atropelou um na nacional, e ninguém liga ao DOP quando se tem um cozido à portuguesa a fumegar na mesa de Natal.
Veredas entre o xisto e o céu
As estradas municipais são daquelas que se aprendem de cor: uma curva apertada, outra mais apertada, uma lomba que faz o carro dançar e um cão que dorme no meio da estrada porque sabe que passam dois carros por dia. Não há trilhos sinalizados, mas basta seguir o muro de xisto mais bonito que se chega lá. A perdiz levanta voo quando ouve passos, o coelho-bravo só apanha quem tem a sorte de ir com o Jorge — o único que ainda os caça sem GPS. No Outubro, os bosques de galeria parecem que estão a competir com as vinhas a ver quem fica dourado primeiro, e as aves migratórias pousam nas árvores como quem vai a caminho de Espanha mas decidiu parar para um café.
A tarde cai devagar, o mesmo sol que aqueceu as costas do António na vindima agora pinta as videiras de dourado. Nas escadas do café, fala-se do preço da uva e de quem ainda não fechou a porta da adega. O cheiro a lenha começa a subir das chaminés, e alguém pergunta se o Zé já trouxe o feijão do Pinhão. Em Pegarinhos, o dia acaba quando o último carro apaga os faróis — e isso geralmente acontece antes das dez.