Artigo completo sobre Vale de Mendiz: Vinhas de Xisto e Três Aldeias no Douro
Território UNESCO onde Vale de Mendiz, Casal de Loivos e Vilarinho de Cotas partilham socalcos
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O xisto escuro fica com um brilho de óleo quando o sol da tarde bate nas costelas da serra. O silêncio é tamanho que se ouve a água do Pinhão a correr lá em baixo, entre os caniços, como quem conversa sozinho. A estrada faz três voltas apertadas e despe-nos em três aldeias que partilham o mesmo coreto: Vale de Mendiz, Casal de Loivos e Vilarinho de Cotas. Desde 2013 juntaram-lhes o nome na papelada, mas quem cá vive sabe que isto sempre foi um só sítio — dividido por vinhas, unido pelo vinho.
Três nomes, um território
Vale de Mendiz é o sítio onde o vale é mais gordo e ainda há quem se lembre do velho Mendes que andava de burro e distribuía terra a quem não tinha. Casal de Loivos começou num casal de casas encostadas à serra, hoje são umas quantas mais, mas continuam a deixar a porta aberta. Vilarinho de Cotas é um nome que ninguém explica bem: há quem diga que vieram daqui os Cotas que foram para o Porto enriquecer, outros juram que “cotas” são os caminhos de xisto que ladeiam a encosta. São 449 habitantes, 449 especialistas em saber quem é filho de quem, 449 que reclamam do frio mas não trocam o céu estrelado por nada.
No coração do Alto Douro Vinhateiro
As vinhas são escadas de pedra feitas à mão, cada muro um dia de trabalho, cada socalco uma vida inteira. Aqui o mapa da UNESCO serve para os turistas; os da terra usam o mapa das rugas nas mãos. Ainda se fazem vindimas a pé, com um cesto ao ventre e a faca no bolso, e o cheiro a mosto fica na roupa até ao Natal. Dos 52 jovens, metade foi estudar para fora, a outra metade já está de volta: descobriram que havia Wi-Fi e vista para o Douro no mesmo pacote.
Fé e convívio
As festas são três, mas soam a uma. Em Vilar de Maçada o pessoal do vale sobe a pé, em Casal de Loivos tiram as cadeiras para a porta, em Vilarinho de Cotas assa-se cabrito na praça. Quando os sinos tocam, toda a gente sabe se é missa ou se é morto. Entre procissão e fila do arroz-doce, conversa-se sobre a colheita, sobre a chuva que não veio, sobre o neto que nasceu em França. A fé aqui é como o vinho: não se explica, bebe-se aos goles.
Dois monumentos, séculos de história
Há uma capela e uma ponte oficialmente importantes. O resto é pedra que se foi guardando: um cruzeiro com a data apagada, uma eira onde ainda se bateu milho no século passado, um lagar que agora é alpendre. Não há placas, nem código QR. Quem quiser saber, pergunta ao Sr. Armindo, que tem 82 anos e a memória de um computador — só que liga mais depressa.
Quando o sol se põe atrás da Serra de São Mamede, o xisto ferve em cores. Nas chaminés começa a sair fumo da lenha de sobreiro: é o jantar a preparar-se, é o dia a fechar-se. Sentado no muro, com um copo de tinto na mão, percebes que Vale de Mendiz, Casal de Loivos e Vilarinho de Cotas não são tratos de um cartão de visita — são um sítio que se leva na boca e não se esquece.