Artigo completo sobre Vilar de Maçada: onde o xisto e a vinha moldaram séculos
Freguesia de Alijó preserva memória medieval em granito e tradição vinícola do Alto Douro
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O sol da manhã atravessa os socalcos com uma luz que não é só alaranjada - tem aquele tom de mel que só se vê em Maçada quando o ar está limpo. Aqui, a 440 metros de altitude, o granito das casas não "absorve o calor devagar": ferve durante o dia e depois larga-o à noite inteira, como um gato que se enrola no teu colo e não quer ir embora. O vento sobe do vale, sim, mas traz mais que o aroma da terra: traz o cheiro a cortiça queimada dos socalcos onde ainda se faz fogueira para limpar os muros, e às vezes o cheiro a azinheira que alguém está a podar mais acima.
A memória gravada na pedra
A "Villa de Maçada" do século X era aquilo que resta do castelo - umas pedras no meio do eucaliptal que nem os mais velhos já se lembram de lá ir. As casas não são "robustas com paredes grossas": são o que podiam ser feitas com o que havia. As janelas não são "feridas estreitas" - são o tamanho exacto para uma mulher ver passar o carteiro e já saber se traz notícias de fora ou só contas. O som dos passos nas ruas empedradas: de manhã é o do António que vai para a vinha com as sapatilhas de lona, ao fim-de-semana é o das senhoras que vão à missa das nove e arrastam os sapatos porque já não conseguem levantar bem os pés.
O "património classificado" é a igreja que tem a porta sempre aberta porque a chave se perdeu há trinta anos, e o cruzeiro onde os miúdos se sentam para comer marmelada com pão quando a mãe não está a ver. Não há placas, é verdade, mas também não há necessidade: o chão desgastado em frente à fonte diz quantas gerações ali foram buscar água antes de virem as canalizações.
Vinhas que moldaram gerações
Vilar de Maçada não "cresceu ao ritmo da vinha" - a vinha é que foi crescendo para onde os homens conseguiam chegar com enxada. Os 816 habitantes incluem o Zé que tem 87 anos e ainda poda com a faca de pegar de pau de oliveira que o pai lhe deu, e a Alice que veio do Porto há cinco anos e está a aprender a distinguir um Tinta Roriz de um Touriga Franca pelas folhas.
As mãos que podavam há cinquenta anos não continuam a fazê-lo: muitas já não conseguem fechar o punho em volta da enxada. Mas a netas de que fala o texto são sobretudo netos, que vêm aos fins-de-semana e fazem perguntas que os avôs respondem entre dentes, enquanto mostram como se faz o nó da pampilho para amarrar a vinha.
O "silêncio denso das tardes de Agosto" é interrompido pelo rádio do Joaquim que pões RFM no máximo enquanto rega a horta, e pelo tractor do Bruno que sobe a quinta aos trambolhões carregado com pipas de 1000 litros porque o ano está seco que se farta.
O calendário das devoções
A Festa de Vilar de Maçada é quando o Adelino abre a mercearia até à uma da manhã e ainda assim fica sem gelo. A Senhora dos Aflitos é a padroeira de quem tem medo - medo da seca, medo do fogo, medo dos filhos que não arranjam trabalho. A procissão não tem "foguetes" - tem três, que o Evaristo compra em Vila Real e que ele e o irmão atiram alternadamente porque um deles tem o braço dormente desde o AVC.
Nesses dias, as "casas fechadas durante o ano" não abrem - são as casas dos que já morreram. Mas as que ainda têm gente acendem luzes que se vêm da estrada, e há sempre alguém que traz um bolo de laranja feito com fruta do quintal. Os emigrantes que regressam não são "emigrantes" - são o Paulo que vem de França e já não sabe falar direito, a Manuela que vem da Suíça e trouxe chocolates que derretem na mala, o Zézinho que vem do Luxemburgo e finge que não se lembra mais de quem é quem.
Onde o xisto guarda o calor do dia
Ao cair da tarde, quando a luz fica rasante, o xisto não "irradia calor seco e mineral". Queima. Queima as mãos de quem se esqueceu de luvas e tem de agarrar nas talhas de poda, queima os pés descalços dos miúdos que se descalçam para correr na terra batida. Esse momento - quando o vale já está em sombra mas os cumes ainda ardem - não resume Vilar de Maçada. Resume é o cheiro a fogão de lenha que já começa a sair das chaminés, o som da TV do vizinho que se ouve porque as janelas estão abertas para deixar entrar fresco, o cão que ladra na estrada porque passou alguém que ele não reconheceu.