Artigo completo sobre Ardãos e Bobadela: sinos, granito e fé no Barroso
Duas aldeias transmontanas unidas no mapa, separadas pela tradição e pelos retábulos barrocos
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O som dos sinos da Igreja de São Sebastião chega sempre com um atraso. Primeiro ouve-se em Bobadela, depois em Ardãos, como se a campainha estivesse indecisa em que aldeia fica. São 463 habitantes — contei-os no cenário, mas na prática são menos, porque o Zé do Tasco foi para Vila Real tratar da diabetes e ainda não voltou — distribuídos por duas aldeias que o mapa juntou, mas que continuam com cada um o seu sino, o seu santo e o seu café onde ninguém paga bica desde 1998.
Pedra, promessa e procissão
As igrejas são aquilo que se espera: granito à séria, dourado que fere os olhos e um cheiro a cera que me faz lembrar a minha avó. Nenhuma é monumento nacional — é como ser sócio do clube do Sporting, não traz vantagens mas dá respeito. A romaria do Senhor do Monte é o maior acontecimento do ano. A malta vai a pé, porque o carro do compadre está sem seguro, e leva-se pão na mochila que a mãe fez de madrugada. Não há Wi-Fi no cimo do monte, mas há pastilhas Rennie para o refluxo e conversa sobre a chuva que não vem.
Sabor que não se inventa
O restaurante é a cozinha da D. Rosa. Abre quando ela está a ver televisão e ouve carros na estrada. O cabrito é de facto de leite, mas o leite foi mamar na mãe dele e não em pó. A chanfana tem o molho escuro que mancha a toalha de linho e que a mulher do Silva tentou copiar uma vez — correu-lhe mal, claro, faltou-lhe o vaso de barro que a D. Rosa herdou da sogra. O vinho é verde sem marca, tirado da garrafa de Coca-Cola de dois litros. Perguntar pelo ano é pedir para levar com olhada: "É do ano passado, ó senhor, não é lá da China."
Transumância e trilhos antigos
Os caminhos de lajes são como a minha coluna lombar: servem, mas fazem ranger coisas. Os pastores já não sobem todos os verões — aquele que ia para o Gerês agora tem tendinite do telemóvel e vende bitcoins. Mas ainda se veem maronesas nos lameiros, aquelas vacas cor de café com leite que parecem estar sempre a julgar as tuas escolhas de vida. O silêncio é tal que ouço o meu telemóvel a vibrar no bolso, mesmo estando desligado. Não há placas de trilho, não há QR codes, mas há o Zé Mário que, se lhe pagares um imperial, te leva ao lugar onde o Teixeira perdeu o dedo mindinho numa desencontra com a motosserra.
Ao cair da tarde, o vento traz o cheiro a lenha queimada e o som do trator do Américo que está sempre a "só mais um bocado" de ir para a oficina. Os sinos voltam a dobrar, desta vez mais devagar, como quem sabe que aqui o tempo não é dinheiro — é só tempo. E tempo, por estas bandas, ninguém tem pressa de gastar.