Artigo completo sobre Beça: Dez Aldeias de Granito no Coração de Boticas
Conheça Beça, freguesia de Boticas em Vila Real com dez aldeias de granito, fornos tradicionais, miradouros sobre a veiga e memória medieval viva.
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O fumo sobe tão direito da chaminé que parece um gajo a tentar fazer coluna. É inverno, o céu está cinzento como a cara do Zé Manel depois de perder o euromilhões, e em Vilarinho da Mó o forno do povo espera pela próxima fornada. Pedras postas lá por gerações que nem sequer conheciam o que era cimento - é disto que é feito o pão de Beça, aquele que a minha avó dizia que "segura o corpo" até ao jantar.
O rio Beça anda por aí em baixo, escondido, mas faz-se ouvir. É como o velhote do café que não fala mas tosse em sinal de presença. A 727 metros, o ar corta as costelas e traz aquele cheiro a lenha e terra que faz lembrar domingos de chuva.
Pedra sobre pedra, como Deus mandou
A igrejinha de São Bartolomeu está onde sempre esteve - no meio, como bom português. Do alto, vê-se a torre a vigiar os socalcos que descem até à veiga. D. Afonso III deu foral por aqui em 1206, e desde então que as aldeias se agarram ao sítio como quem se agarra ao último copo. Cada uma com a sua capela, o seu largo, aqueles caminhos de terra onde os sapatos ganham uma camada de pó que é quase património.
Em Carvalhelhos, a capela de Santa Bárbara está mesmo em cima do castro. Lá de cima deve ver os turistas a subirem a perguntar "mas isto é que é o castro?" Sim, é. São pedras que estão aí desde antes dos romanos irem para Chaves passar férias.
Subir a Seirrãos é como ir ao sótão da casa - lá de cima vê-se tudo. A veiga de Boticas estende-se como um patchwork de verdes e castanhos, todo cortado por aqueles muros de pedra que o meu pai chamava "muros de contar histórias". O nome da aldeia vem dali - "seiras" era aquilo que se mudava de sítio para sítio, ano sim, ano não. Tal como a minha conta do banco.
O que vai para dentro do prato
Não vão esperar fusões ou cusquices. Aqui come-se o que a terra dá, ponto.
A Carne Maronesa não é maronesa por acaso - é daquelas vacas que passam o dia a pastar e a pensar na vida. Vem para a mesa preta por fora, cor-de-rosa por dentro, com um sabor que lembra os lameiros onde andou. O cabrito vai para o forno a lenha e fica com a pele estaladiça que faz companhia à batata que vai buscar todos os molhos.
Nos fumeiros, o enchido vai ganhando cor. Chouriça, salpicão, sangueira, e aquele chouriço de abóbora cor de futebol do Braga. O presunto de Barroso espera pacientemente - coisa que nós já não sabemos fazer. E o mel... esse tem cor de fim de tarde e sabe a urze e castanheiro. Dizem que é DOP, mas por cá é DOB - Denominação de Origem da Beça.
Procissões e outras desculpas para se juntar gente
No último domingo de julho, a malta começa a subir ao Senhor do Monte antes do galo cantar. É a romaria grande do concelho - uns vão de fé, outros vão de conversa. Mas todos vão. Os caminhos enchem-se de gente que se encontra uma vez por ano e faz de conta que não se viram desde o ano passado.
Entre as festas da Livração e São Sebastião, há sempre um arraial onde os acordeões tocam aquelas músicas que toda a gente finge não saber, mas quando começam até o padre bicamba.
Caminhos que só os locais conhecem
Os trilhos que ligam as dez aldeias não têm placas nem setas. Se perguntar ao Zé, ele diz: "Segue aí pela levada, vira no moinho, depois é sempre em frente até cansar". Simples. Em Quintas ainda se vê pedras da estrada romana - gastas por quem passou há dois mil anos, e por quem continua a passar.
O Beça tem zonas onde a água faz curvas e os salgueiros fazem de guarda-sol. Perfeito para quem gosta de pesca - ou para quem gosta de desculpa para não fazer nada.
Ao fim do dia, as chaminés voltam a fumar. Uma a uma, como se a freguesia fosse fumando o seu último cigarro antes de dormir. O sino de São Bartolomeu bate seis vezes, o eco vai e vem entre as encostas, e Beça continua ali - teimosa como a pedra, quieta como o rio.