Artigo completo sobre Codessoso, Curros e Fiães: três aldeias no Tâmega
União de freguesias a 819 metros, entre pontes romanas, caretos de entrudo e cânticos do século IX
Ocultar artigo Ler artigo completo
O som chega primeiro: o eco metálico de água a bater na roda de madeira — lembra aquele barulho do liquidificador quando ainda era sua avó a bater os legumes no almofariz. Depois o murmúrio do Tâmega lá em baixo, como quem conversa ao ouvido. Só depois é que se ouve o estalo da lenha: alguém acende o lume para o café. Fiães acorda assim, a 819 metros, com a paisagem sonora de quem ainda marca a vida pela água que entra no moinho e pela fome que saiu do fogão.
A ponte romano-gótica, com os seus dois arcos escuros, guarda no segundo uma marca de 1755 — a escala das cheias. Dizem que foi o dia em que o Tâmega se levantou da cama do lado errado. A pedra ficou tatuada, como quem leva uma cicatriz de guerra e não se importa de mostrar.
Três aldeias, um anfiteatro de xisto
Codessoso, Curros e Fiães juntaram-se em 2013 por decisão de quem nunca cá vem, mas cada um continua a sua vida. Codessoso é o vizinho que gosta de estar no alto — dá para ver a barba ao diabo. A Capela de Nossa Senhora da Livração tem azulejos que valiam fortunas em casa de leilão, mas aqui ficam sossegados. No primeiro domingo de maio descem os habitantes aos campos com a procissão; cantam uma ladainha em latim que ninguém percebe, mas que faz o milho crescer. Curros é o lugar onde os currais ainda têm o nome da família — e as ovelhas parecem saber. O Cruzeiro de granito está ali desde que os avós eram meninos; a Casa do Eirô, com a sua fachada caiada, lembra o tempo em que havia quem escrevesse "solar" no envelope. Fiães, mais baixo, agarra-se ao rio como quem não quer pagar a conta sozinho. A ponte, desde que os romanos a construíram, tem sido o único sítio onde o Tâmega não discute com ninguém.
Caretos, máscaras e fogachos na encosta
No Domingo Gordo, os caretos de Curros saem à rua com máscaras de freixo feitas na véspera — mais vale não perguntar onde é que o António arranjou aquele freixo tão jeitoso. As matrafonas fecham as janelas, mas deixam a porta entreaberta: ninguém quer perder o espetáculo. A 6 de agosto, na Romaria de S. Salvador, a encosta parece um presépio ao contrário: os fogachos descem em cascata e as vozes sobem em desafio. É como o futebol, mas sem bola — ganha quem improvisa melhor e não falha o tento.
Feijoada de maronesa e mel que guarda a serra
Aqui a comida não é inventada: é herdada. A feijoada de maronesa leva o tempo que leva — ponha a panela no forno às nove da manhã e vá à missa, à tertúlia e ao café. Quando voltar, a carne desce do osso sozinha, como quem pede desculpa por ter demorado. O salpicão corta-se à faca grossa, não se fia da máquina. O mel de Barroso, então, é um caso sério: cada colher é uma viagem ao bosque onde a urze e a giesta fazem o trabalho sujo. Quem leva um pote para casa tem de prometer que não vai misturar com nada — até o pão de centeio fica sem jeito se anda por perto.
O trilho que liga cinco rodas d'água
O PR 15 "Trilho dos Moinhos" é o percurso ideal para quem gosta de caminhar sem pressa e voltar com os sapatos limpos — o chão de xisto esculpe-se sozinho. Ao sábado, às dez, o Moinho do Pego abre as portas: o moleiro mostra como se faz farinha sem trapaça. O cheiro a cereal acabado de moer mistura-se com o húmido do ribeiro — é como entrar numa padaria subterrânea. Em Fiães, as lajes do Tâmega servem de espreguiçadeira de granito: o rio aquece ao sol da tarde e ninguém paga cama. A GR 38 corta a freguesia de lado a lado: de um extremo ao outro, são 14 km onde o corço aparece mais vezes que o autocarro.
O dia acaba quando a última luz bate na ponte e a marca de 1755 parece um relógio de pedra. Lá em cima, em Codessoso, o espigueiro circular — o único do concelho — ainda guarda o milho como em 1832, sem Instagram. O Tâmega continua a correr, indiferente, levando a água, a farinha e o fumo das chaminés. A aldeia fica pequena, mas ninguém se queixa: aqui o silêncio é tão grande que cabem todos.