Artigo completo sobre Covas do Barroso: vale entre serras e memória gótica
Igreja com túmulo de leões, fumeiro protegido e lameiros entre a Serra da Sombra e do Pinheiro
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O fumo sobe direito da chaminé do forno comunitário, desenhando um traço vertical sobre o vale encaixado. É meio da manhã e o granito das casas ainda segura a humidade da noite, pedra escura onde o musgo cresce nas juntas mais sombrias. Ao fundo, a ribeira de Covas murmura por baixo da ponte de arco único — não medieval, reconstruída após a cheia de 1909 que arrastou a ponte antiga levando embora o moiniro António da Ribeira. Quem olha do Alto do Castro compreende o topónimo: a povoação repousa numa depressão natural entre a Serra da Sombra e a Serra do Pinheiro, a 621 metros de altitude.
A sepultura sobre leões
No interior da Igreja Matriz de Santa Maria, o silêncio é denso como água parada. A abóbada de pedra do altar-mor absorve qualquer eco, e sobre o chão da capela-mor ergue-se a sepultura gótica de Afonso Anes Barroso, escudeiro da Casa de Bragança falecido em 1409. Dois leões de pedra sustêm o túmulo — raridade em Trás-os-Montes, gesto de poder que atravessou seis séculos. Os retábulos barrocos dourados contrastam com o granito cinza das paredes quinhentistas; lá fora, junto ao adro, o cruzeiro manuelino aponta para o céu com as suas volutas gastas pelo tempo. Ambos classificados como Imóveis de Interesse Público (Decreto n.º 43 980, de 8 de Janeiro de 1960), guardam memória de um território onde o achado de uma ara romana no Poio, em 1973, confirmou ocupação desde o século I.
Fumeiro e mel de montanha
Na mercearia do Zé Manel, os enchidos pendem do tecto como estalactites de carne: presunto de Barroso DOP, salpicão, chouriça de carne, chouriço de abóbora, sangueira — fumados sobre cinza de carvalho até adquirirem aquela casca acobreada. O cabrito e o cordeiro de leite pastam nos lameiros onde o gado maronês, introduzido em 1902 pelo veterinário Augusto Lima, desenha trilhos seculares entre as cortinhas de pedra seca. Ao almoço, o borrego assado no forno de lenha chega à mesa com a pele estaladiça — receita que D.ª Emília, nascida em 1924, garante ser igual à da avó: apenas sal, alho e louro. O vinho tinto da região, elaborado com as castas Bastardo e Mourisco, equilibra a gordura da carne; no final, o mel de Barroso DOP, colhido nos três colmeares que o Joaquim mantém em Romeínho, escorre dourado sobre a broa de centeio ainda morna do forno da Dona Rosa.
Água, pedra e silêncio
O Trilho dos Moinhos desce até à ribeira onde dois moinhos de rodízio dormem entre silvas e fetos. O do Penedo, construído em 1892 pelos irmãos Augusto, moeu até 1963 quando o moinheiro António "o Cotovio" partiu a rodízio a caminho da eira. Nas levadas que alimentam os lameiros, o reflexo do céu multiplica-se em fractais de luz — águas que correm desde que o abade Francisco de São Torcato mandou abrir o canal em 1784. O caminho sobe depois até Romaínho, aldeia onde a capela de São José guarda a festa de 19 de Março e onde as casas de granito se agarram ao declive. No cabeço do Penedo, a 812 metros, uma águia-de-asa-redonda nidifica desde que o último tiro de caça ecoou em 1978. O território integra a Reserva da Biosfera do Barroso desde 2021, mas aqui ninguém precisa de certificados — a paisagem mede-se nos 47 campos de solha que o Adérito ainda trabalha como o pai e o avô.
Quando a noite cai sem poluição luminosa, as estrelas acendem-se uma a uma sobre o vale. O eco do sino da igreja propaga-se devagar — fundido em 1924 com o bronze de dois canhões da Grande Guerra — batendo nas encostas e voltando transformado, como se o granito guardasse cada som para o devolver mais tarde, quando já ninguém espera.