Artigo completo sobre Pinho: Onde o Fumeiro Marca o Ritmo das Estações
A 574 metros de altitude, esta freguesia de Boticas vive da arte de curar carne ao frio transmontano
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O fumo sobe devagar dos fumeiros, como quem não tem pressa nenhuma. Em Pinho, a 574 metros de altitude, o frio entra pelas frestas das casas de granito como um visita que conhece a casa de cor — e que fica. São 328 almas, das quais 144 já passaram dos 65. Dizem as contas que há seis vezes mais velhos que crianças, mas ninguém aqui faz essas contas. Faz-se antes o presunto, que é coisa que dura mais que as estatísticas.
A geografia do fumeiro
Os 22 quilómetros quadrados de Pinho não se medem em mapas — medem-se em cheiros. Às seis da manhã, cheira a madeira de carvalho e gordura que cai em gotas lentas sobre a brasa. Ao meio-dia, cheira a vaca Maronesa que pastra no lameiro, a ver se o tempo melhora. Às três, cheira a pão de centeio que a Maria do Céu ainda vai ao forno buscar de lãs nos pés, porque "o chão é frio e a idade não perdoa".
Nos fumeiros, o presunto de Barroso ganha feições de postal. Mas o postal não diz que o João teve de subir ao monte cortar a lenha, que a mão dele ainda sente o machado, nem que o porco foi o Luís — esse sim, crescido á vontade, com direito a bolota e tudo. A certificação DOP é um papel que vem de Lisboa. O sabor vem daqui, do tempo que não tem hora para acabar.
Calendário de romarias
Há duas festas que ainda juntam gente: Nossa Senhora da Livração e São Sebastião. Entre uma e outra, o padre vai ao café e pergunta se vão à romaria do Senhor do Monte. "Vamos, vamos", dizem todos, mas uns vão de carro e outros vão mesmo a pé, como o Sr. António que tem 82 e conta pelos dedos quantos foram — "este ano fomos sete, o ano passado foram nove, mas o ano que vem... o ano que vem já se vê".
O que resiste
Há 24 crianças. Dá para uma turminha de futebol, se duas forem bancos. Mas quando o autocarro da escola sobe a estrada, ainda se ouvem vozes. São poucas, mas são barulhentas — e isso é bom sinal.
O que não faltam são chouriços a secar nas cozinhas. O doce de abóbora é um truque da avó Albertina: "mete-se a abóbora, umas rodelas de laranja e espera-se. O resto faz-se sozinho". O queijo de ovelha faz-se ainda no tacho de ferro que a filha trouxe de Vila Real, mas que "é melhor que os de inox, aqueles não sabem a nada".
O vento da tarde leva o fumo até ao vale. Dentro das casas, as mãos amassam pão como quem conta uma história que já se sabe de cor — a mesma, mas sempre diferente. Em Pinho, o tempo não parou. Aprendeu é a andar mais devagar, para não deixar ninguém para trás.