Artigo completo sobre Vilar e Viveiro: vida a mil metros na serra de Barroso
Freguesia de Boticas onde 383 habitantes preservam tradições entre lameiros e fumeiro de altitude
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A manhã chega devagar a Vilar e Viveiro, anunciada pelo sino da igreja que parece que se enganou no despertador — às vezes toca, às vezes não. A quase mil metros de altitude, o frio húmido da serra agarra-se à pele como uma dívida antiga. O granito das casas guarda a memória térmica da noite — paredes grossas que, no Inverno, são como aquele tio que nunca tem aquecimento ligado: "É fresquinho, faz bem!"
Onde o silêncio tem eco
Trezentos e oitenta e três habitantes. Dá para conhecer toda a gente numa tarde de domingo, se esticares o café. Doze pessoas por quilómetro quadrado — é o que dizem os papéis, mas na prática é mais fácil encontrar uma vaca do que um vizinho. Cento e sessenta pessoas com mais de sessenta e cinco anos que sabem de cor cada pedra do caminho para o Santuário do Senhor do Monte. Pergunta a qualquer um onde fica a casa do "Seu" António e ele descreve-te o caminho passando por três muros caidos e uma oliveira torta.
Vilar é Vilar, Viveiro é Viveiro. Juntaram-nos na papelada mas cada um tem o seu café, a sua taberna, a sua opinião sobre o tempo. As casas agrupam-se como velhos amigos no domingo — umas coladas às outras, protegendo-se do vento norte que no Inverno parece que vem directamente do Uruguai. Entre elas, os lameiros: pastagens onde as vacas maronesas pastam com ar de quem está de férias permanentes.
O que se come (e como se come)
Aqui a comida não é para tirar fotos. É para comer. O Cabrito de Barroso assa durante horas na taberna do Sr. Albano — vai lá ao sábado, leva tempo. A Carne Maronesa é talhada grossa, temperada com sal e nada mais. O fumeiro das casas guarda presuntos que curam ao ritmo da serra: devagar, como tudo aqui. O mel é denso, talvez demais para quem vem da cidade — faz falta pão bom para o acompanhar, senão fica preso à garganta.
Festas em que a aldeia respira fundo
A Festa de Nossa Senhora da Livração é em Agosto. É quando a aldeia duplica de tamanho — os emigrantes regressam, as casas fechadas abrem-se, e de repente há fila para o café. A Romaria ao Senhor do Monte é a subida mais honesta da serra: 3 quilómetros de caminho de terra, subida a pique, promessas a cumprir. Leva água. Leva também um pastel de nata para oferecer ao primeiro velho que encontrares no caminho — vai que é preciso.
Ao cair da tarde, o fumo das lareiras sobe em linha recta. É o sinal de que é hora de ir para casa. Não há candeeiros na estrada, nem na aldeia. A noite aqui é mesmo noite — preta como o café do Sr. Joaquim, que ainda o faz no fogão a lenha.