Artigo completo sobre Cimo de Vila da Castanheira: aldeia de pedra e altitude
Igreja românica do século XIII vigia vales transmontanos a 850 metros de altitude em pleno planalto
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O sino da torre sineira marca as horas sobre o planalto, mas aqui, a oitocentos e cinquenta metros de altitude, quem o ouve são sobretudo os cães e as galinhas. O vento atravessa os castanheiros que deram nome ao lugar, levanta folhas secas da calçada de xisto e traz o cheiro a lenha verde que ainda não queimou direito. Cimo de Vila da Castanheira ergue-se no cume, como o próprio nome anuncia, e a vista desce pelos vales adjacentes até onde a névoa matinal ainda não levantou.
Pedra que vigia
A Igreja Matriz de São João Baptista domina a aldeia desde que alguém se lembra de contar. Granito pardo, porta baixa que rangia na minha infância quando a avó me levava à missa das sete. Os cachorros esculpidos na fachada não são "modestos" - têm o focinho gasto por séculos de mãos de criança que os pegam para se pendurarem. A torre sineira, separada do corpo principal, ainda permite subir os degraus escorregadios e ver o que se vê há quinhentos anos: um mar de telhados de xisto onde Cimo de Vila se confunde com Sanfins, e só quem é daqui sabe onde acaba uma e começa a outra.
Na Capela de São Sebastião, o chão de lajes está sempre húmido, mesmo em agosto. Lá em baixo, junto à Fonte da Moura, a sepultura antropomórfica serve agora de banco aos velhos que descansam depois de subir a ladeira. A pedra tem o comprimento exacto de um homem - já lá deitaram muitos a brincar, poucos sabem que ali morreu alguém antes de haver papel para o registar.
O que a terra dá
Nos fumeiros, os enchidos ganham cor de tijolo entre outubro e abril. A Dona Aurinda ainda vai ao mato cortar alderno para fazer fumeiro - diz que o pinho dá sabor a resina e ninguém lhe discute. A batata que se planta no Campo do Outeiro é pequena, feia, mas quando a cozes até às dez da noite ainda está firme. A castanha, essa é colhida à mão pelos netos que vêm nos fins-de-semana, sacos de pano ao ombro, pés molhados pela orvalho da serra.
Na Tasquinha do Zeferino servem cabrito que foi ao pastel ontem, com grelos que a mulher dele cortou de madrugada. O pão é do forno do Soeiro - aquele que está encostado à parede da igreja e só abre aos sábados, quando o pároco vai lá abençoar a massa.
Romarias que não cessam
São Sebastião a 20 de janeiro é missa às nove, procissão que desce até à capela com o cortejo a escorregar no gelo, e depois caldo verde para todos no salão da junta. O Anjo da Guarda em agosto é quando os emigrantes chegam de França com matrículas sujas de pó, e as mulheres passam a tarde a comparar netos. São João é fogueira na pracinha, sardinhas que o Zé Manel traz de Chaves em cima do carro, e os rapazes a tentarem saltar a fogueira sem partir as botas novas.
O Carvalho da Missa ainda está lá, no cabeço. Dizem que quem lhe cortar um ramo fica doido, mas o que eu sei é que o meu avô cortou um galho para fazer enxadas e viveu até aos noventa e seis, sempre meio tolhido mas suficientemente são para me bater quando eu lhe roubava figos.
Silêncio acumulado
Trezentos e trinta e oito habitantes, mas isto é contar quem tem casa cá. Se fores à padaria às sete da manhã encontraste cinco pessoas, se fores ao café ao fim do dia encontraste as mesmas cinco. As casas vazias têm as portas encostadas com fita-cola, janelas pintadas de azul para fingir que há vida lá dentro. Ao fim da tarde, quando o sol pega no xisto e faz aquela loura que dá vontade de morder, o silêncio é tão grande que se ouve o leite a ferver na panela da Dona Emília. O sino toca, ninguém se move, os cães nem se dão ao trabalho de ladrar. Aqui não se mede o tempo - espera-se que ele passe, como se espera que a chuva pare ou que a neve derreta.