Artigo completo sobre Curalha: onde o fumeiro guarda o sabor de Trás-os-Montes
Freguesia transmontana a 420 metros de altitude, entre enchidos certificados e caminhos de Santiago
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O fumo sobe devagar das chaminés, desenhando linhas verticais contra o céu cinzento de Inverno. Em Curalha, a 420 metros de altitude, o frio chega cedo e demora-se até tarde — e é nesse frio que amadurecem os enchidos pendurados nos fumeiros, onde a carne de porco bísaro ganha a cor escura e o sabor concentrado que distingue o presunto e o salpicão desta zona de Trás-os-Montes.
Dizem que por aqui há 416 pessoas, mas isso é contar quem tem morada oficial. Na prática, são menos. Muito menos. E se fores na rua a partir das nove da noite, até podes contar pelos dedos de uma mão quem ainda está acordado. Mas os números não contam a história completa.
O que se faz com as mãos
A gastronomia de Curalha não é folclore — é o que põe pão na mesa. A freguesia está dentro do território dos 17 produtos certificados, mas o que interessa mesmo é o que se faz nas cozinhas. O fumeiro é o quarto mais importante da casa — entre vigas enegrecidas por décadas de fumo, pendem os tesouros: presunto que pode lá estar dois anos, salpicão que tem de ser virado de vez em quando, e aquele chouriço de abóbora que a avó faz melhor que ninguém.
Não é gourmet, não é artesanal de Instagram. É sobrevivência. É o porco que se mata em Janeiro e que tem de durar o ano todo. O sal é esfregado à mão, sim, mas porque a máquina estragou há três anos e ninguém arranjou. E o alho vem do quintal — se o tempo não estragou tudo.
Caminhos que atravessam
Dois ramos do Caminho de Santiago passam por aqui, mas não penses que é como no Minho. São caminhantes perdidos, mais que peregrinos. Param na padaria de Vidago a perguntar se ainda falta muito, e a dona lá vai dizendo que "logo se vê". Trazem mochilas demasiado novas e uns andares que denunciam quem vem da cidade. Às vezes dormem na Casa do Povo, se o Zé António tem a chave — é ele que trata disso, que é vereador e tem tempo.
A densidade populacional é baixa, dizem os papéis. Na realidade, é uma pessoa por casa, com sorte. E entre uma casa e outra há silêncio que dói. Nos dias de nevoeiro, que são muitos, nem vês o vizinho — só ouves a televisão dele, se ele se esqueceu de fechar a janela.
Ao fim da tarde, quando o sol rasante ilumina as fachadas de granito, o fumo sobe outra vez. É assim que se sabe que ainda cá estão. Não é paisagem pintada, é gente que resiste. Como tem feito há séculos. Como provavelmente continuará a fazer, enquanto houver um fogo aceso na lareira e um presunto a ganhar sabor no fumeiro.