Artigo completo sobre Loivos e Póvoa de Agrações: altitude e pedra seca
Entre nevoeiros e caminhos de Santiago, duas aldeias unidas pela geografia e pelo silêncio rural
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A manhã cheira a terra molhada e a cinza de lareira mal apagada. O nevoeiro desce do Viso e enrola-se nos telhados como um gato antes de saltar para as vinhas. Aqui não há “vale” – há um desfiladeiro apertado entre o Viso e o Padrelo, onde o Tâmega corre tão em baixo que só o ouvem os cães. O sino que se ouve é o de Loivos, mas às sete e meia sobra o de Póvoa, dois toques descompassados que os velhos ainda conseguem distinguir de olhos fechados.
Duas aldeias, um caminho
Uniram-nas em 2013, mas quem vem de fora nem repara na placa: a estrada municipal 528 faz a curva ao Rossio e, sem avisar, já se está em Póvoa. Loivos tem o coreto e o banco de granito onde o Moço da padaria vai fumando o cigarrinho antes de abrir às seis; Póvoa tem a fonte onde as mulheres levavam as pilhas de roupa até aos anos 90, hoje tapada por causa dos ratos. O “monumento” é a ponte de meia cana sobre o ribeiro de Agrações: dois arcos de xisto sem guardanapos, com o sapo-bufo a ouvir passar os tractores.
O peso do Caminho
O Caminho Nascente entra por Portela do Viso, desce a rampa de alcatrão que o Pereiro do Outeiro nunca conseguiu asfaltar direito, e segue pela estrada velha que os rapazes usam para ir à caça de texugo. Não há setas amarelas na pedra – há uma tampa de bidon azul pregada no choupo, e o postal de Santiago que a Amélia pôs na montra da mercearia, ao lado dos pacotes de açúgar cor-de-rosa. Quem quer cama experimenta a casa da Dona Alda: leva o pequeno-almoço no pátio, com leite aquecido na caneca de barro e o pão de milho que o marido vai buscar a Chaves às cinco da manhã.
Sabores que vêm de longe e ficam
O fumeiro está pendurado na lareira da cave, onde o fumo se agarra às traves de castanho durante três meses. A alheira do Zé Múcio leva pimentão-doce da terra – não é regra, é gosto. Quando cai a primeira chuva de Outubro, vai-se à “venda” da Padrela buscar castanhas em saco de regedor; assam-se no tinel da padaria, com a porta meia aberta para não escapar o cheiro a pele queimada. A carne maronesa vem do rebanho que o Sequeira pastoreia nos campos de Loivos; quando abate, avisa-se a aldeia toda no mesmo dia e ainda se trocam pernas de borrego por garrafas de vinho tinto.
O preço do silêncio
Fecharam a escola de Loivos em 2009; a porta ficou trancada com o mapa de Portugal ainda colado à parede. Agora os miúdos apanham o autocarro às sete para Chaves, o mesmo que leva os reformados ao centro de saúde às terças. Sobraram 586 almas, mas na prática são menos: há casas com a chave virada na fechadura desde que o filho foi para França, e hortas que só são lavradas ao fim-de-semana quando o neto desce do Porto. Ainda assim, ao domingo há bola no campo de Póvoa – os velhos jogam de chapéu posto, e o grelhador da associação vende bifanas a um euro com pão de cima.
Texturas do quotidiano
Às quatro da tarde o sol desliza pela encosta e bate no muro da cisterna, aquecendo o xisto até ele soltar um cheiro a pó e a samares. O rio não se vê, mas sente-se no ar húmido que sobe pelo caminho de Servo, trazendo o ruído das rodas das vacas que descem para beber. Não é preciso cartaz: basta segir o cheiro a estilha nova quando o Adelino rega o milheiral, ou ouvir a máquina de soldar do Horácio que ecoa como um grilo metálico ao longo do vale. Quando o sino toca outra vez, são oito badaladas que se perdem no ar, e o cão do Ferrugento uiva sempre uma nota atrasado, como que a despedir-se do próprio som.