Artigo completo sobre Madalena e Samaiões: onde o fumeiro guarda memórias
Freguesia transmontana entre Terra Quente e Fria, cruzada por caminhos de Santiago e tradições
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O fumo sobe das chaminés como quem não tem pressa nenhuma — cheira a carvalho, sim, mas também a chouriça que a vizinha está a estourar para o jantar. Às nove da manhã, quando o nevoeiro ainda não decidiu se fica ou se vai, ouve-se o mesmo barulho de sempre: o tractor do Zé que parte no primeiro arranque e o cão do costume a reclamar distância. São 376 metros de altitude, mas o que importa é que aqui a Terra Quente e a Terra Fria se cumprimentam na esquina, trocam umas impressões e ficam à conversa.
Onde o caminho se bifurca — e ninguém se perde
Dois caminhos de Santiago cruzam-se na estrada municipal: o Interior e o Nascente. Os peregrinos aparecem com aquela cara de quem já leva 20 km nas pernas e ainda lhe faltam 150. Param no café da Adelaide pedir uma bica e a pergunta de sempre: “Isto aqui é ainda Chaves?” É. Mas não é a cidade — é a aldeia que lhe empresta o nome e guarda a diferença. Não há monumentos para fazer fila; há antes um cruzeiro de granito que o pessoal chama “a pedra grande”, uma capela onde se vai à missa no domingo e se acende uma velinha quando o neto vai para a tropa, e muros de xisto que se desfazem devagar, como nós.
O fumeiro como arquivo — e como jantar
Na sala de jantar de cada casa há um buraco no tecto: é a boca do fumeiro. De lá pendura o presunto que o António matou em Dezembro, a alheira que a Emília amassou com pão de ontem e o salpicão que o sogro diz que “este ano ficou mais picante”. Tudo leva o selo IGP, mas o selo que interessa é o da tia Rosa: se ela diz que está bom, está. Come-se com vinho tinto da cooperativa — não é para analisar, é para despir — e, se houver sorte, sobra um pastel de Chaves que ainda está quente do forno da padaria. Deixa cair as migalhas na camisola: é sinal de respeito.
Paisagem de transição — ou seja, subida e descida
O terreno não é de filmar, é de caminhar. Sobem-se dois degraus, desce-se um; tropeça-se numa videira que decidiu nascer no meio do caminho e ri-se do cão que veio ver se a gente traz biscoito. A água corre aos sábados, quando chove. O resto do tempo, o ribeiro leva-se a sério e guarda-se para as ocasiões. Não há placas a dizer “miradouro”, mas se se sentar na pedra em frente à cisterna consegue-se ver a aldeia toda — e o vizinho a regar o nabiçal em chinelos.
Quotidiano sem artifício — e com hora de fecho
São 2416 almas, mas na prática são menos: 887 já pediram a reforma, 224 ainda vão à escola e o resto divide-se entre quem trabalha em Chaves e quem trabalha no estrangeiro e aparece no Verão com matriga nova. Há 20 casas para alugar — umas boas, outras que só têm vista para a eira, mas tudo se arranja. Às segundas-feiras a mercearia abre até às duas; às terças só se for preciso leite. O café fecha quando o Zé se cansa de aturar o jogo de sueca, o que costuma ser por volta das onze. A missa é às dezasseis horas, mas chegue cinco minutos antes para arranjar lugar na banca da frente — senão vai para trás com os miúdos e não ouve a homilia do padre que fala baixo, como quem tem medo de incomodar.
Quando o sol se põe atrás do outeiro, o fumo sobe outra vez. É o mesmo de sempre: cheira a lenha queimada, a toucinho que estalou e a dia que acabou. Ninguém marca hora para jantar; ouve-se a porta a bater e sabe-se que é a hora. Aqui não se parte nem se chega — vai-se dando a volta, como quem regressa a casa e encontra tua avó na cozinha a dizer que o prato é o de sempre.