Artigo completo sobre Santa Leocádia: 804 metros de altitude e silêncio
Igreja barroca, ponte medieval e vida rural na encosta da serra do Brunheiro, junto ao Tedo
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O sino da Igreja de São Bartolomeu marca as horas sobre um vale onde o silêncio pesa mais do que o som. A 804 metros de altitude, Santa Leocádia estende-se pela encosta da serra do Brunheiro como quem se recosta devagar, sem pressa de chegar a lado nenhum. O ar aqui é frio e limpo, mesmo em agosto, e traz consigo o cheiro a terra seca, a mato rasteiro e, quando o vento vira, a fumo de lenha que sobe das chaminés dos lugares dispersos — Adães, Carregal, Fornelos, Matosinhos, Santa Ovaia, Vale do Galo. São nomes que só fazem sentido para quem aqui vive, pequenos núcleos de pedra onde 254 pessoas resistem ao esvaziamento que levou embora mais de dois terços da população desde 1989.
Quarenta e cinco caixotões pintados
A igreja matriz ergue-se no centro da aldeia com uma fachada barroca de frontão em asa de morcego, uma geometria que rasga o céu azul transmontano. Lá dentro, a nave respira ouro velho e madeira escura: 45 caixotões pintados no tecto, retábulos dourados que reflectem a luz das velas, e um retábulo lateral dedicado a São Pedro — mandado erguer em 1727 pelo pároco Domingos de Araújo, num raro gesto de iniciativa privada clerical que ficou gravado na pedra e no tempo. O chão range sob os passos, e o ar cheira a cera e a humidade antiga.
A ponte que une duas margens
Mais abaixo, o rio Tedo corre estreito e fundo, ladeado por bosas de castanheiros e oliveiras que se agarram aos socalcos. A Ponte Antiga de Santa Leocádia — também chamada de Santo Adrião — atravessa a corrente em cantaria medieval, com tabuleiro de cavalete que durante séculos serviu de passo obrigatório entre Tabuaço e Armamar. Classificada como Imóvel de Interesse Público em 1977, a estrutura resiste ao peso dos anos e ao frio das manhãs de nevoeiro, quando a pedra sua e o musgo brilha verde-escuro à luz rasante. É um lugar de silêncio profundo, cortado apenas pelo murmúrio da água e pelo voo rasante das aves que aqui nidificam.
Vinhas, castanhas e enchidos de altitude
Santa Leocádia vive da terra e do que a terra dá. As vinhas sobem em socalcos até onde a encosta permite, produzindo vinhos de altitude da região de Trás-os-Montes que ganham corpo com o frio das noites serranas. As castanhas — DOP da Padrela e da Terra Fria — caem pesadas no outono, recolhidas à mão para venda directa ou para assar nos braseiros das casas. Nos fumeiros, pendem chouriças de carne e de abóbora de Barroso, salpicões, presuntos e alheiras que envelhecem devagar no fumo de carvalho. À mesa, a batata de Trás-os-Montes IGP acompanha cabrito ou cordeiro de Barroso, regados a azeite local e fechados com mel DOP ou, nos dias de festa, com um pastel de Chaves ainda quente.
Caminhos que levam mais longe
Dois itinerários de Santiago — o Caminho Interior e o Caminho Nascente — cruzam a freguesia, trazendo peregrinos de mochila às costas que sobem devagar pelos trilhos de pastoreio, entre muros de xisto e capelas votivas. Há miradouros naturais sobre o vale do Tedo onde a vista se perde na cordilheira, e o vento traz o cheiro a tomilho e a urze. Quem caminha por aqui aprende depressa que a pressa não tem lugar nesta geografia.
Ao fim do dia, quando o sol poente incendeia os caixotões dourados da igreja e a luz rasante desenha sombras compridas nos socalcos, Santa Leocádia fecha-se sobre si própria. O frio desce da serra, o fumo sobe das chaminés, e o sino volta a marcar as horas — devagar, como tudo o reste.