Artigo completo sobre São Vicente: Altitude, Silêncio e Pedra em Chaves
Freguesia transmontana a 708 metros onde vivem 185 habitantes e passam peregrinos de Santiago
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O granito da igreja emerge do verde das encostas. Ao longe, o sino corta o silêncio — uma nota grave que se arrasta pelo vale e morre na espessura dos castanheiros. Em São Vicente, a 708 metros de altitude, o ar é fresco mesmo em Agosto. Nas manhãs de Inverno, o nevoeiro sobe do Tâmega e apaga os contornos das casas.
São 185 habitantes distribuídos por mais de três mil hectares. Os muros de xisto dividem lameiros que já não alimentam rebanhos. A densidade populacional é de menos de seis pessoas por quilómetro quadrado. O vizinho mais próximo pode estar a dez minutos de caminhada. Dos 185 residentes, 121 têm mais de sessenta e cinco anos. Há cinco crianças na freguesia.
A igreja é um Imóvel de Interesse Público. A pedra resistiu ao tempo e ao esquecimento. O vento que varre as cumeadas não distingue séculos.
Dois traçados do Caminho de Santiago atravessam a freguesia: o Caminho Interior e o Caminho Nascente. Os peregrinos sobem a encosta com o peso da mochila. Alguns param à sombra de um carvalho, bebem água da cantil, retomam o passo. São Vicente é passagem ou pausa — depende do corpo de quem caminha.
A alheira de Barroso-Montalegre pende dos fumeiros. A carne Maronesa tem fibra densa. O cabrito de Barroso assa lentamente com sal grosso e alho. O presunto de Barroso cura ao frio seco das montanhas. A castanha da Terra Fria cai dos ouriços em Outubro.
Ao fim da tarde, o fumo de uma chaminé ergue-se devagar. Alguém acende o lume para o jantar. A lenha estala. O cão ladra uma vez, depois cala-se. O frio da noite desce das cumeadas.