Artigo completo sobre Travancas e Roriz: onde a batata reina a 785 metros
Terra fronteiriça de altitude, centeio e batata IGP junto à Galiza
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O nevoeiro da madrugada desfaz-se devagar sobre os campos de batata, deixando a descoberto o verde-escuro das folhagens e o castanho-avermelhado da terra revirada. A 785 metros de altitude, o frio morde — mesmo em pleno Verão, as manhãs exigem camisola de lã. O silêncio aqui não é vazio: ouve-se o vento a passar nos socalcos, o murmúrio distante de água em valetas de rega, o tilintar metálico de uma enxada contra a pedra. Estamos na União das freguesias de Travancas e Roriz, a menos de dois quilómetros da Galiza, numa das zonas mais altas do concelho de Chaves — onde o planalto montanhoso se estende ondulado, e os invernos cobrem tudo de branco.
Capital da batata e terras de passagem
Travancas proclama-se "Capital da Batata", e não é figura de estilo. Nos campos que rodeiam a aldeia, a batata de Trás-os-Montes IGP cresce em rotação com o centeio, beneficiando da altitude, do frio e da terra solta. A colheita é tardia, mas a textura firme e o sabor adocicado compensam a espera. Quem conhece a região sabe que aqui a batata não é acompanhamento — é protagonista, cozida em água e sal, servida ao lado de cabrito assado ou de presunto cortado à faca.
A etimologia de Travancas remete para "travão", uma estrutura de madeira que fixava ou travava algo — possivelmente uma ponte ou passagem. Faz sentido: esta foi sempre terra de trânsito. A proximidade com a Galiza, onde a aldeia de Arzádegos fica a escassos três quilómetros e meio, marcou séculos de história clandestina. Miguel Torga mencionou-a no seu Diário, referindo-se à passagem de "peles" — contrabando discreto, feito em noites sem lua, antes da abolição das fronteiras físicas entre Portugal e Espanha.
Altitude, frio e o peso do centeio
A paisagem aqui não tem dramatismo de montanha — é antes uma sucessão de colinas suaves, campos abertos onde a vista se perde até à linha do horizonte. Mas os 900 metros de altitude em certos pontos fazem-se sentir. O inverno é longo e rigoroso, a neve cobre os telhados de xisto, os caminhos de terra transformam-se em lama gelada. No Verão, as tardes são luminosas mas os serões pedem lume aceso. O centeio, que aqui ainda se semeia, ondula ao vento com aquele som seco de palha roçando palha.
Fumeiro, castanha e mel do Barroso
A gastronomia desta união de freguesias bebe directamente do catálogo de DOP e IGP de Trás-os-Montes. A Alheira de Barroso-Montalegre IGP, o Presunto de Vinhais IGP, o Cabrito de Barroso IGP, o Mel de Barroso DOP — tudo isto chega às mesas locais, muitas vezes produzido em fumeiros próprios ou adquirido em feiras próximas. A castanha, embora menos abundante que noutras zonas do concelho, também marca presença no Outono, assada em braseiras improvisadas ou cozida para acompanhar carne de porco. O Pastel de Chaves IGP, embora nascido na capital concelhia, é aqui consumido como merenda de caminho ou sobremesa de domingo.
Roriz, Argemil e São Cornélio
A união, criada em 2013 pelo agrupamento de Travancas com Roriz, junta as antigas freguesias que já incluíam as localidades de Argemil e São Cornélio. Roriz, topónimo de origem patronímica comum no Norte, mantém ainda a sua capela de São Sebastião, com festa anual a 20 de Janeiro. Os 454 habitantes distribuem-se por um território vasto, de mais de 21 quilómetros quadrados, onde a densidade populacional é baixa e o envelhecimento acentuado: 249 idosos para apenas 12 jovens. Mas há quem resista, quem semeie, quem mantenha os currais e os fumeiros acesos.
O cheiro a lenha de carvalho queimada acompanha-te até ao fim da tarde. Quando o sol desce atrás das colinas galegas, a luz rasante dá à terra revolvida tons de ferrugem. E o frio volta, sempre.