Artigo completo sobre Vale de Anta: Onde os Caminhos de Santiago se Cruzam
Freguesia transmontana a 444 metros de altitude, entre megalitos, peregrinos e gastronomia certifica
Ocultar artigo Ler artigo completo
A luz da manhã entra rasgada pelas janelas das casas baixas, como se ainda estivesse a decidir se vale a pena despir o xisto da noite. O silêncio só é quebrado pelo sino da igreja de São Domingos — aquele que, na hora de ponta, se sobrepõe até ao rádio da tasca. São 444 metros de altitude, mas o que conta é que, se subir mais um bocado, já se avista a Torre de Chaves e, se descer, encontra o café que abre às sete e meia para os peregrinos que vêm do interior.
O nome que vem da pedra
Dizem que “Vale de Anta” vem de uma anta que por aqui existiu. A pedra desapareceu — serviu, como tudo, para muros ou para a base de alguma eira — mas o nome ficou. No brasão, a anta é azul; na memória, é um bocado de granito que ninguém sonde onde parou. A freguesia nasceu no século XIX, quando alguém decidiu que isto já chegava de gente para ter administração própria. Não há palácios nem castelos, há é muro de pedra solta que cai todo se lhe tocarem nas ervas-das-paredes.
A mesa transmontana
Chegue cá com fome. A alheira de Barroso não é só IGP, é sobretudo desculpa para abrir o vinho antes do jantar. O cabrito vai ao forno de lenha, a carne maronesa estufa no vinho da casa e a batata de Trás-os-Montes — essa sim, firme como bom português — aguenta-se inteira mesmo depois de três guisados. Quando as castanhas caem, enchem-se eiras e sopas; o mel, escuro como o inverno, serve-se à colher para “esticar” a tosse. E, se lhe apetecer algo que não precise de explicações, desça a Chaves e coma um pastel. Mas volte cedo, que aqui a noite fecha-se de portas.
Paisagem de passagem
São 10 km², contados ao de cima. Nem parque natural nem reserva: só monte, ribeiro e caminho de pé posto. Dos 1 625 habitantes, quase um terço já tem idade para recordar o tempo em que o campo alimentava toda a gente. Hoje, 199 miúdos correm ainda pelos caminhos-de-rolões; o resto é gente grande que se senta à porta ao fim do dia. A 3 km tem-se Chaves — o suficiente para ir ao hospital, ao cinema ou ao Lidl, mas longe o bastante para não ouvir o barulho. Há oito casas para alugar: servem para quem quer silêncio, ou para quem precisa dele.
Sob os pés dos peregrinos
O Caminho de Santiago passa, mas não faz alarido. Não há monumentos a cada esquina: há muro de pedra seca, um cão que ladra e depois se rende, o cheiro da terra depois da chão. É caminho para andar devagar, com tempo para reparar que o carvalho da curva já foi pendão e que a eira ao lado ainda tem as iniciais do avó lavadas na cal. Quando o sino toca, ecoa pela encosta como quem pergunta “aí vens?” e não espera resposta.