Artigo completo sobre Vilas Boas: Pelourinho Manuelino e Santuário no Barroso
Vilas Boas, freguesia de Chaves em Vila Real, preserva pelourinho do século XVII, santuário a 590m de altitude e gastronomia certificada de Barroso.
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O escadório sobe em granito, degrau a degrau, como quem vai à loja do gás carregado mas desta vez leva os olhos na paisagem. Lá em cima, no adro, o Tâmega parece um fio de prumo que alguém deixou cair entre os socalcos. Olhe para o largo da Lamela: o pelourinho está lá como sempre, ao lado da capela de S. Sebastião, mais desdentado que o meu tio Américo mas ainda com pose de quem mandava quando vilas boas eram vilas e não eram freguesias.
Quando uma vila era vila
Até 1836 isto aqui foi concelho inteiro — tinha tudo: cadeia, tribunal, foral e os homens que se achavam mais ricos que os de Chaves. Hoje são 164 habitantes, contados com o padre e o cão do padre. A igreja matriz é do século XVIII mas guarda na sacristia um pedaço de friso manuelino que sobreviveu a tanta modernice como o meu casaco de lã às riscas. Quem lhe diga que o nome vem dos romanos — "villas" eram as quintas e "boas" era o terreno que dava para tudo sem se queixar.
O santuário que vale a subida
O Santuário de Nossa Senhora da Assunção está a 590 metros, o que parece pouco até começar a subir. Vale o esforço: do adro vê-se o Barroso inteiro, da Serra do Larouco até à torre de Chaves, e no outono as castanheiras parecem castanhas a sério, todas vermelhas. Os caminhos de Santiago passam aqui — os peregrinos param para respirar e tirar uma foto, depois descem para o café pedir um copo de água e uma informação que ninguém sabe dar.
O que se come (e se bebe)
Nas tasquinhas há alheira de Barroso sem pão na massa — é mesmo de carne, frita na sertã até ficar com casca de vidro. O mel é tão escuro que parece café de chávena mal lavada, mas é doce que nem pecado. Leve pastel de Chaves na mochila: come-se frio, não esfarela e acompanha um bica que o Sr. António faz na máquina de 1987. Se for no Inverno, prove o chouriço de abóbora: parece doce de gila mas salta-lhe o sal no finzinho.
Para onde ir quando cansar de estar parado
Desça pela vereda do Monte do Faro — são 45 minutos de ladeira abaixo até à ribeira, onde as pedras são almofadas naturais e a água está sempre a fazer de conta que é Verão. Leve banhador na mala do carro, mas não se admire se entrar e sair em trinta segundos: a água é mais fria que a minha sogra. À noite, fique numa das casas recuperadas: o silêncio é tão grosso que se ouve o relógio de pulso. O cão do Sr. Joaquim ladra às três da manhã, mas é só para marcar horário.
Quando o sol se põe atrás do Cabeço, o granito fica cor de mel e o pelourinho parece que vai falar. Vilas Boas não tem pressa de impressionar ninguém: está ali há séculos, com a mesma calma de quem sabe que o mundo acaba em Chaves e recomeça no Gerês. Deixe-se ficar mais um bocado — o café ainda está aberto e o Sr. António gosta de quem pergunta como foi o dia.