Artigo completo sobre Oliveira: Vinhas em Socalcos sobre o Douro
Oliveira, Mesão Frio, Vila Real: freguesia no Alto Douro Vinhateiro com vinhas em socalcos de xisto, 349 habitantes e gastronomia transmontana autêntica.
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O sol da manhã bate oblíquo nos muros de pedra que seguram os socalcos. Aqui, a 184 metros de altitude, as oliveiras dão nome ao lugar desde que me lembro, mas são as videiras que mandam — fileiras que descem até ao Douro como se alguém as tivesse desenhado com régua, cada cepa agarrada ao xisto como quem tem medo de cair. O ar cheira a terra quente e a vinha em repouso, aquele odor que só se sente em Janeiro quando a poda acabou e o campo parece estar a dormir. De vez em quando ouve-se o galo do Sr. Armindo ou o tractor do Zé Carlos que sobe a encosta aos trambolhões.
A geometria do xisto
Oliveira faz parte do Alto Douro, aquilo que os ingleses chamam de "wine region" mas que para nós é só a nossa casa. Cada muro de pedra seca, cada degrau na montanha, foi feito por quem cá viveu antes de nós. A minha avó dizia que o xisto escuro é que guarda o calor para as uvas amadurecerem — e ela percebia disso, vindimava até aos 80 anos. A freguesia tem só 343 hectares, mas dá para tudo: vinha, oliveiras, um bocadinho de pomar e aquele pedaço de mato onde os miúdos vão apanhar amendoeiras para fazer armas de guerra.
Os 349 habitantes sabem que em Março é tempo de cortar a terra, em Setembro é vindima e em Dezembro faz-se o matabicho. Quando o vento vira norte, o Zé da Tasca fecha a porta da esplanada porque "vai haver aguaceiro". E vai.
Sabores ancorados à terra
Na mercearia da D. Rosa ainda se vai às segundas-feiras buscar o pão de milho que ela faz no forno a lenha. O presunto do Sr. Anselmo fura-se lá para casa, pendurado na cave com o fumeiro a lenha de carvalho que cheira até à estrada. Domingo é dia de sarrabulho — aquele que a minha mãe faz com a cabeça do porco do costume, servido com rojões e os nabiços do quintal. O vinho tinto da casa não tem selo, tem sabor a terra e a uva touriga que o meu pai ainda plantou no ano em que eu nasci.
Caminhar entre patamares
Para ver Oliveira de cima, sobe-se o caminho de terra que vai para a capela de S. Sebastião. São 20 minutos a puxar o coração, mas lá em cima vê-se o Douro a fazer a curva junto ao Carrascal, as quintas do outro lado que parecem casas de boneca e, se for inverno, os negralhos no céu que avisam que vem aí chuva. O Nuno da Quinta do Vale ainda faz provas de vinho, mas é só ligar à campainha e ele aparece com um copo na mão para contar o que foi o ano de 2018 — "muito seco, mas deu uvas lindas".
Ao final da tarde, quando o sol se põe atrás do Marão e o xisto fica cor de ferrugem, percebe-se que isto não é paisagem para cartão-postal. É o sítio onde a minha avó plantou oliveiras, onde o meu pai podou vinha até ao último dia, onde os meus filhos já correm descalços nas terras do mesmo socalco. As oliveiras que deram nome ao lugar continuam ali — algumas mais tortas do que outras, mas todas de pé.