Artigo completo sobre Vila Marim: vinhas em socalcos sobre o Douro
Vila Marim, em Mesão Frio, Vila Real, é uma freguesia vitícola de 915 habitantes onde os socalcos do Douro Vinhateiro descem até ao rio em patamares trabal
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A estrada faz aquelas curvas que obrigam a mudar de três em terceira, entre muros de xisto que parecem ter nascido ali. Quando as vinhas aparecem em patamares tão justos que até um burro tem dificuldade em virar, percebes que o trabalho é mesmo à mão - não há máquina que consiga plantar ou colher ali. Vila Marim fica a trezentos metros de altitude, mas o que impressiona é ver o Douro lá em baixo a fazer de linha de honra a toda esta encosta.
Dizem os dados que cá vivem 915 pessoas. Digo-te já: à hora de almoço, parecem menos. E não é só impressão - há 301 habitantes com mais de 65 anos e só 69 miúdos com menos de 14. A escola fechou há anos, o que sobrou foi a padaria (abre de segunda a sábado) e o café do Adelino que serve um café honesto e uns tremoços que não são daqueles de pacote.
Raízes no termo de Vinhais
O nome Vila Marim anda aí há séculos, mas ninguém te vai dar uma explicação que preste. Uns dizem que vem de "marim" como em terrenos húmidos - ironia do destino, porque água é o que mais falta cá no verão. Outros falam no antigo termo de Vinhais, mas isso é como dizer que o teu avô era de lá porque a mulher dele tinha um primo que casou com uma rapariga daquelas bandas.
O que é certo é que isto é Alto Douro Vinhateiro, património mundial. Não é título para pôr na parede - é o que explica porque é que cada metro quadrado de vinha foi conquistado à pedra. As paredes de xisto não são decorativas: seguram a terra e guardam o calor do dia como quem guarda segredo. A Rota do Vinho do Porto passa por aqui, mas não esperes placas com setas. Pergunta ao primeiro que vires na encosta - pode ser o Sr. Armando, tem 78 anos e conhece cada centímetro destas vinhas como o bolso da camisa.
O que resiste
Há um monumento classificado, dizem. Deve ser a Igreja de São Tiago, mas ninguém te vai bater com isso na conversa. O que vais encontrar são 15 casas que alugam quartos - nada de cinco estrelas, mas há uma da Dona Laura que tem uma vista para o Douro que mete conversa em turista nenhum. O nível de visitação é "moderado" como quem diz que o meu tio bebe "socialmente" - aparece quem aparece, geralmente alemães com mochila e bengalas que sobem as encostas como se fossem dar uma volta ao quarteirão.
Na mesa, o presunto de Vinhais IGP é lei. Não é marketing - é o que há. Curado no fumeiro durante meses, com aquele sabor a lenha de carvalho que te lembra as tardes de Inverno em que a neve chegava aos ombros. Os vinhos são do Porto e dos tintos do Douro: encorpados, talhados para acompanhar um bom ensopado ou um queijo da serra que faz chorar os dentes.
Não procures miradouros com selfies. A beleza aqui é como a mulher da mercearia - não é para estar a mostrar, é para servir. Os socalcos existem porque sem eles a terra fugia toda para o Douro. As casas são baixas porque o vento do norte não perdoa. Quando o sol se põe e as vinhas ficam douradas como se fossem de ouro, percebes porque é que malta fica cá mesmo sabendo que podia ir ganhar mais para a cidade.
O trabalho é duro, a malta envelhece, mas as vinhas não ligam à idade de ninguém. Cada ano querem vindima, cada ano dão uvas. E Vila Marim responde, como sempre respondeu - com as mãos na terra e um copo de tinto na mesa do Adelino, enquanto o Douro lá em baixo vai levando as histórias de quem já não cá está.