Artigo completo sobre Atei: onde a serra do Alvão dita o ritmo da vida
Freguesia de montanha a 400 metros de altitude, entre pastagens de gado Maronês e bosques centenário
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O sol da manhã aquece o granito das casas enquanto o sino da igreja marca as horas num ritmo que Atei conhece de cor. A freguesia ergue-se a 390 metros de altitude, onde o verde das encostas se mistura com o cinza da pedra e o ar tem aquele frescor que só as terras do Alvão sabem dar. Estendem-se por 2 233 hectares dentro do Parque Natural do Alvão, território onde o relevo dita o pulso da vida e a EN 304-2, que liga Mondim de Basto a Vila Pouca de Aguiar, revela a cada curva um novo enquadramento da serra.
A geografia do quotidiano
Mil e cento e quarenta e quatro almas habitam este território onde a densidade populacional não chega aos 52 habitantes por quilómetro quadrado. Os dados do INE de 2021 contam uma história comum ao interior montanhoso: 139 jovens até aos 24 anos, 261 idosos com mais de 65. O equilíbrio frágil sustenta-se na ligação à terra e na teimosia de quem não abandona o que é seu. As seis unidades de alojamento local — três apartamentos e três moradias registadas no Turismo de Portugal — acolhem quem procura o silêncio da montanha sem artifícios turísticos, sem promessas de postal ilustrado.
O Parque Natural do Alvão, criado em 1983, define a paisagem e o carácter desta freguesia. As encostas inclinadas alternam pastagens onde pasta o gado Maronês — espécie autóctone que aqui se mantém desde o século XIX — com bosques de carvalhos e castanheiros. A altitude traz nevoeiros densos nas manhãs de Outono e um frio seco no Inverno que faz fumar as lareiras. A água corre abundante nos ribeiros que descem a serra, fria e transparente, alimentando os lameiros onde cresce o pasto que dá sabor à carne protegida pela DOP desde 1996.
O que se come e se preserva
A gastronomia de Atei ancora-se nos produtos certificados que esta terra produz: a Carne Maronesa DOP, de bovinos criados em regime extensivo nas pastagens do Alvão, tem um sabor intenso que vem do exercício e da alimentação natural. O Cordeiro de Barroso IGP — seja o anho ou o borrego de leite — chega às mesas em dias de festa, assado no forno com batatas que absorvem a gordura aromática. O Mel das Terras Altas do Minho DOP traz o néctar das flores de montanha, e o Presunto de Vinhais IGP, curado pelo frio e pelo vento, pendura-se nos fumeiros onde o fumo de lenha de carvalho faz o seu trabalho lento.
Não há restaurantes na freguesia, mas isso não significa ausência de gastronomia — apenas que ela acontece nas cozinhas onde o lume de lenha ainda aquece o caldo de nabos com feijão ou o ensopado de borrego, receitas que passam de geração em geração sem necessidade de rótulo.
Peregrinos e romarias
A Romaria de Santiago, no dia 25 de Julho, e a Noite de Romeiros que a antecede marcam o calendário festivo de Atei. Os romeiros, organizados em grupos que vêm de aldeias vizinhas, caminham desde as 21h30 com lanternas na mão, cantando os cânticos tradicionais enquanto sobem as encostas. O percurso de 3,5 quilómetros até à igreja matriz de Santiago transforma-se numa procissão de luz e voz que ecoa pelo vale, misturando-se com o ladrar distante de um cão e o silêncio denso da montanha. É uma celebração que pertence tanto ao sagrado quanto ao território — a fé mede-se também em metros de subida, em fôlego curto, em pés que conhecem cada pedra do caminho de terra batida.
A luz da tarde inclina-se sobre os telhados de telha escura, projectando sombras compridas nos caminhos que ligam Atei a Vilar de Ferreiros e a Campo de Vilar. A freguesia não promete espectáculo nem se vende como destino — existe, simplesmente, com a dignidade discreta de quem sabe que a montanha não precisa de justificações. O fumo sobe direito das chaminés, o gado recolhe aos estábulos, e a serra do Alvão recorta-se contra o céu num perfil que se repete há séculos, impassível ao calendário.