Artigo completo sobre Bilhó: onde a serra do Alvão molda vidas a 544 metros
Bilhó, em Mondim de Basto, Vila Real, mantém vivo o ritmo da montanha com produtos DOP, arquitetura em granito e 429 habitantes ligados à terra do Alvão.
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O sino da igreja bate às horas certas — nunca às badaladas, mas com um som que se agarra ao ar frio e desce o vale abaixo como se soubesse o caminho de cor. Em Bilhó, o verde não se “desdobra”; agarra-se às pedras, encosta-se às paredes, sobe até onde os olhos cansam de ver. Aqui, a 544 metros, o vento traz sempre uma nota de pinho queimado e, nos dias de chuva, o cheiro da terra é tão forte que se sente na boca.
Moram 429 almas, mas na rua só se vê quem tem pressa de ir à padaria antes que a Maria feche às dez. O resto está nos campos, entre as couves que ainda não foram apanhadas, ou na adega a tirar o vinho do ano passado à prova. Das nove casas de férias que apareceram, duas já têm portas novas pintadas de azul-elétrico — dão com elas no olho, mas são pouco. O grosso do burgo continua a ser xisto e telha antiga, com buracos onde as andorinhas fazem ninho todos os anos sem falhar.
O peso do granito e da tradição
A pedra é que manda: nos muros que se desfazem devagar, nos palheiros que já não guardam feno mas servem de abrigo aos tractores, nas eiras onde ainda se bate milho quando o Augusto se lembra. Há 145 velhos e 31 crianças — as contas fazem-se assim: cada avó tem direito a 0,2 neto. Mesmo assim, alguém ensina o miúdo a cortar a lenha em dois tacos, a afinar a foice e a não meter a mão na boca da cabra quando ela dá à luz.
O presunto do Zé Mário pendura-se no chaminé em Outubro; em Abril tira-se, já dourado e rijo como cabo de enxada. O mel do Sr. António cristaliza-se no pote com uma espuma no topo — é só tirar a colherada que se vê se foi boa ou má colmeia. O cordeiro, se vier de Barroso, sabe a terra e a tojo; se for daqui, sabe à erva que cresce entre as pedras do rego.
A fé que move os pés
Na Noite de Romeiros, acende-se uma candeia em cada casa e junta-se tudo à porta da igreja. Ninguém manda vir cera colorida: usa-se a que restou das velas do defunto, amarela e queimada no fio. Vai-se a pé até Santiago, doze quilómetros ida, doze volta, com a conversa miudinha e o ranger dos joelhos. Quando se chega, o padre já lá está com o vinho tinto engarrafado na Cooperativa — bebe-se um copo, diz-se um “ora por nós”, e volta-se para trás antes que o frio aperte os ossos.
As videiras sobem-se às árvores como se tivesham medo do chão. Quem as plantou já não está, mas os cachos ainda aparecem em Setembro: são pequenos, azedos, perfeitos para o vinho que se bebe de copo de loiça e faz cócegas na língua. Não há provas guiadas, há é o Sr. Domingos que te abre a porta da adega e te enche um garrafão se lhe trouxeres um saco de plástico novo.
O Alvão começa onde acaba o pavimento. Sobe-se por uma vereda que os caçadores abriram à faca; depois do carvalhal, a água corre sob os pés tão fria que dói nos dedos. Ao entardecer, o sol pega no cimo das árvores e tudo fica dourado durante um minuto exacto — depois desliga-se, como se alguém tivesse rodado o interruptor. Fica o silêncio, o cheiro a folha podre, e o latido do Bobi que já se sabe de cor.