Artigo completo sobre Campanhó e Paradança: onde os sinos ecoam no vale do Olo
Duas aldeias unidas pela geografia, separadas pelos santos padroeiros, no sopé do Alvão
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O sino da capela bate três vezes – são 18 h, o toque de anúncio – e o eco viaja pelo vale, ricocheteando nas encostas de xisto que separam Campanhó de Paradança. A luz da tarde rasga o nevoeiro que ainda resiste nas cotas mais baixas, iluminando os socalcos onde as vinhas se agarram à terra. O ar traz o cheiro a lenha das lareiras — não o fumo industrial, mas o aroma denso e resinoso de carvalho queimado devagar. Aqui, a 499 metros de altitude, os campos abertos que deram nome a Campinhó (do latim campus) estendem-se até às primeiras elevações do Parque Natural do Alvão, e o silêncio só é interrompido pelo murmúrio do rio Olo, que corre invisível entre as árvores.
Dois lugares, uma memória
A união administrativa de 2013 juntou no papel o que a geografia já aproximara há séculos: duas aldeias separadas por 1,8 km, mas cada uma com o seu santo padroeiro. Campanhó reza a Santa Bárbara desde 1727, data da primeira escritura da ermida; Paradança a São Jorge, cuja festa se mantém no dia 23 de abril. No brasão aprovado em 2014, o forno e o tambor não são “recordação genérica”: o forno é o de Campanhó, ainda hoje usado para o pão de sábado; o tambor é o “bombo” que acompanha as pauliteiras de Paradança no 1.º domingo de maio. Não há monumentos imponentes. Há, sim, o muro de Xisto de 1784 que delimita a “coutada do Pereiro”, a eira com 23 cacetes de granito onde se batia o milho até 1978, e o cruzeiro de 1872 na bifurcação para Vilar de Ferreiros, com a inscrição “Vós sois o sal da terra” ainda legível.
A romaria que não leva a Santiago
Paradoxalmente, a freguesia celebra Santiago sem estar em nenhum dos caminhos oficiais de peregrinação. A Noite dos Romeiros (24 de julho) e a Romaria de Santiago (25 de julho) nascem de uma promessa feita em 1835, quando o cólera passou ao lado das duas aldeias. Os “romeiros” são apenas aldeões: partem às 4 h de Campanhó, descem à Ermida de Santiago de Paradança – construída em 1703 e alargada em 1926 – e sobem de volta ao som da concertina de Zé da Cuca. Não há conchas nem credenciais; há chouriça de porco celta assada na brasa do adro e vinho verde do Lagar do Carvalhal servido em copos de 200 ml que a cooperativa ainda lava e reutiliza.
Carne, mel e vinho verde
A cozinha destas terras não precisa de artifios. A Carne Maronesa DOP – 28 animais inscritos no livro genealógico da raça pastam aqui acima dos 600 m – chega à mesa em rojões com toucinho de Marmeleiro, servidos no dia 24 em tigelas de barro de Vilar de Ferreiros. O Borrego de Leite Barroso-IGP provém da herdade da família Gomes, em Paradança, e vai ao forno de lenha durante 4 h com hortelã-brava do quintal. O Mel das Terras Altas do Minho DOP é colhido por António Monteiro em 30 colmeias de abelha iberiana; em 2023 rendeu 840 kg, vendidos à porta de casa a 8 €/kg. O Presunto Bísaro de Vinhais IGP cura-se no sótão da casa da Praça de Campanhó, pendurado na viga de carvalho desde novembro; está pronto no dia de Reis. O vinho verde é do Casal do Paço: 1,2 ha de loureiro plantados em socalcos de xisto, 4 000 garrafas de 2023, vendidas a 4 € na porta do lagar.
Entre o Tâmega e o Alvão
Os trilhos não têm placas nem QR-codes; têm nomes que se aprende na infância. O “Caminho do Ribeiro” desce 2,3 km até ao Olo, onde a ponte de 1952 substituiu a passadeira de troncos que servia até à cheia de 1946. O “Trilho da Urze” sobe 350 m de desnível até ao Planalto de Santa Luzia; lá em cima, a 860 m, avista-se o Tâmega a 7 km, a antiga estação de Campanhó (linha cerrada em 1990) e, ao fundo, o cume do Alvão a 1 030 m. A flora conta-se nos dedos: urze-de-ércoles (Erica arborea) florida em agosto, fetos-javardo (Pteridium aquilinum) que secam em setembro, musgo-de-cristal (Hypnum cupressiforme) que cobre os muros norte. O guia-rei-norte (Buteo buteo) plana às 11 h, quando as correntes térmicas começam; o melro-preto (Turdus merula) canta às 5 h, mesmo em dezembro. Com 20 hab./km², o silêncio é tão denso que se ouve o relógio de corda do tractor John-Deere 2040 do Joquinha a 1 km de distância.
O que fica
Ao fim da tarde, quando a luz amolece e as sombras se alongam sobre os campos, ouve-se o som distante do mesmo tractor a regressar da vinha. O fumo sobe direito das chaminés, sem vento que o desvie. Nas seis casas de turismo rural legalizadas – três em Campanhó, duas em Paradança, uma no Olo – acendem-se as primeiras luzes: são 23 camas no total, ocupação média de 42 % em 2023. O frio húmido da noite começa a instalar-se, trazendo consigo o cheiro a terra molhada e a certeza de que amanhã, às 7 h, o nevoeiro voltará a preencher o vale como um rio invisível.